Pico Ruivo - Ilha da Madeira

 

 

NOVES FORA, NADA!

 

 

A vontade que às vezes dominava Ale Mohamed era de colocar fogo em tudo. Assim, não ficaria preso àquele sótão, nem àquele imenso monte de papéis, uns escritos a mão, outros datilografados, outros ainda vindos em forma de e-mails via computador e Internet... Os filmes, os vídeos, os DVDs, os livros antigos dele e de outros autores, os discos em vinil, os CDs, enfim, queimaria tudo... E não iria mais nem conservar aquele mundo de roupas que foram se acumulando em vários armários... Doaria tudo. Até a casa ele doaria, a quinta… Só assim sentir-se-ia mais livre, mais solto, exatamente como o PRIMEIRO ÁTOMO VIVO. Solto, no que era O NADA...

Somos nada mais, nada menos, do que NADA... Lembrou-se até de um tema que escrevera em O Planeta Exterminador... NADA... Que falava de um menino que na escola não sabia nada (entre aspas), mas um dia a sua professora apareceu na sua terra natal, Fortaleza e, coincidentemente o reencontrou junto com o pai, a vender os peixes que haviam pescado. Ela comprou alguns e na hora de pagar perguntou quanto era, o menino disse: NADA!!!

A professora voltou a perguntar: Nada?

Ao que o menino respondeu: Nado!

 

E lembrou-se também que até o mestre Jorge Martins, que muito entendia de matemática e mecânica celeste, sempre falava que quando chegamos ao numeral máximo, qual seja, o 9, chegamos ao princípio ou Alpha... NADA... e, de Alpha a Ómega, tudo se une... E se está unido, por que será???

POR NADA.

Noves fora, NADA!!!

Que incrível! Chegamos ao NOVE, e, noves fora, nada!!!

Isto é matemática.

E a matemática é uma ciência exata.

 

A cabeça de Ale Mohamed andava em círculos, enquanto o velho rádio transmitia o som de um conjunto tocando instrumentos de sopro, com o título musical: SAX Saudades!!!

Se colocasse fogo em tudo, como iria matar saudades de momentos que ele já vivera em outros tempos, com outras pessoas, ao som de um sax ou violão, as deliciosas boemias, com Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho... O Castelo da Lagoa, no Rio de Janeiro, os momentos em que o piano de Luiz Carlos Vinhas inebriavam a noite enluarada da Cidade Maravilhosa... Ou mesmo no Clube da Esquina, em Belo Horizonte, onde Milton Nascimento dava canja cantando "Eu caçador de mim!"

É verdade, no fundo, no fundo, somos todos caçadores de nós mesmos!!!

 

As fotos que ele havia separado estavam sobre a antiga escrivaninha, espalhadas e ao mesmo tempo unindo os velhos tempos àquele momento mágico, o SAX ao fundo, em tons bem baixos, moldando aquele dia que nascia. Para variar, Ale Mohamed continuava um boêmio, amante da lua, amigo do sol, e, enlevado por tudo aquilo, foi escrevendo o que lhe vinha n'alma...

 

Noves fora NADA!

Que grande ilusão era este mundo em que vivemos... pensou.

Penso... Estou então desequilibrado... estou penso...

Mas, se uns dizem que o pensamento é que nos conecta com o cosmo...

Outros citam a cabala...

Ai, meu Deus!!!

 

Mas que diabos, aquela madrugada o apanhara de jeito.

"Madrugada, lá no morro que beleza, ninguém chora não há tristeza, nem existe desamor... E o sol colorido, vem vindo, tingindo, tingindo!"

A canção, que no passado fora entoada por Vinícius de Moraes, lhe adentrou pelo cérebro até ao coração.

A conexão, mesmo com o Sax ao fundo, veio tão nítida, tão límpida…

Viu o morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, onde subira várias vezes para conversar com Cartola, ouvir músicas feitas pelo coração daquele povo que veio de África e foi ficando

Descendentes de escravos... considerados analfabetos pelas elites, mas com uma sabedoria que vinha sabe-se lá de onde!!!

E é preciso saber de onde vem?

 

Tudo ia martelando seus momentos naquela madrugada em que o NOVES FORA, NADA! o apanhara ali, de surpresa.

Seria melhor fazer uma imensa fogueira?
Queimar tudo e esquecer que havia sido aquele homem?

Caramba, o que vocês querem me dizer???

Perguntou como se conversasse com alguém, mas estava falando com os seus próprios átomos, os mesmos que o acompanhavam desde quando era apenas e tão somente um espermatozóide, o tal espermatozóide que ganhou a corrida de milhões de outros espermatozóides...

Conversava com eles, como se conversa com os amigos em um encontro social ou familiar.
Eram a sua verdadeira família. E nada importava a fama da Ilha onde se encontrava. Agora o que precisava era desvendar, afinal… o que era mesmo que precisava desvendar???

 

Perdera-se em si mesmo, de tão grandioso era o que havia descoberto. E não mais tinha a célere resposta, como antigamente. Os anos pesavam. Será que pesavam mesmo ou será que ele estava simplesmente divagando e deixando fluir tudo o que, ao fim e ao cabo, era ele mesmo em conexão com o universo... E, claro, uma viagem destas leva seu tempo de interpretação e de inter...preta...ação...

Em ter preta ação!!!

Gente do céu!!!

Quem antes de tudo interpretava os sonhos, as vidências e tudo o mais eram os homens azuis do deserto, eram os chamados negros do Continente Africano. Sem dúvidas eles foram os primeiros a interpretar os mistérios... MISTER...IO... SENHOR... EU...

Senhor de quê???
Eu???

Sou NADA, sou então senhor de nada... Esta é muito boa...

 

Lembrou-se de Brasília a sua babá... que tinha este nome muito antes de nascer a capital federativa do Brasil. Africana, sabia das coisas. Ah se sabia...

Afffffff!!!

Que crime imenso a humanidade praticara, e ainda acobertados pela chamada IGREJA...

Gente do céu, pensou Ale Mohamed... Ele mesmo era descendente do povo do Deserto... Origem Mourisca, Judaica, Árabe... negros, claro que eram também considerados negros... OLHOS NEGROS... cintilantes...

 

Mas o que tinha tudo isto a ver com "noves fora, nada!"?

Será que isto interessava?

A divisão das raças... curioso é que tinham as cores básicas que se usavam nas gráficas...
Preto, Branco, Vermelho, Azuis... Zulus... ...LUZITANA... LUZ... AZUL...

O MUNDO GIRA E A LUZITANA RODA, lembrou-se ele, dos carregadores de piano que lá na Praça da Liberdade tinham a empresa que de vez em quando passava com aqueles grandes caminhões, levando mudanças. Ah...!!!
Quantas e quantas vezes eles mudaram, e tiveram que chamar a Luzitana para carregarem o piano de cauda...

 

Até que um dia, tudo isso acabou. Ele fora para o mundo e apenas carregava o que ele era...

Cansou de ir e vir de um lado para o outro com as mudanças que a família fazia, sem chegar a lado algum... Novamente família, fama da ilha.
Com 12 anos seguiu seu rumo, e nunca mais voltou.

Às vezes ia visitar a Mãe, em plena Liberdade, São Paulo, onde a Luzitana continuava a carregar pianos.

O mundo gira, a Luzitana roda...

Quem inventou a roda foram os Luzitanos, pensava...

 

Quanta confusão naquela madrugada. O sax tocava uma música muito suave, agora com um piano ao fundo... Summer of 42...

Deixou-se levar pela música de fundo, respirou mais fundo do que costumeiramente respirava.

 

A imagem de Maria Gabriela surgira à sua frente, a veterinária que o conhecera lá pelas bandas do Pantanal Matogrossense, e que o ajudara a compreender que era realmente um escritor. Ela o deixara à vontade para apenas escrever, fora a primeira pessoa em sua vida que o deixara SER O QUE REALMENTE ERA...

Escritor... eu?

 

Ihhhhhhhhhhhhhhhhh, aquela madrugada realmente estava muito complicada... Lá no fundo do sótão a imagem dela sorria.

Uma lágrima correu sobre sua face envelhecida... A imagem desapareceu...
Ele recolheu a lágrima com os lábios, tinha que continuar escrevendo O AVATAR, e ficava ali a perder tempo com divagações sem lógica nenhuma.

Ah... a lógica, que fazia parte da filosofia, era justamente o que se deduzia de todos os diálogos. Então, quer dizer que sem diálogo nunca chegariam à lógica!

Exatamente!!! Ouviu seus átomos lhe responderem.

 

Silenciou seus pensamentos... Acalmou-se, relaxou, deixou-se ali, sem pensar, apenas ouvindo o sax... YESTERDAY...
Afinal, por que estudara tanto, por que viajara tanto, por que conhecera tanta gente, contribuíra até com o Rotary Clube, Universidade da Paz, entre outros clubes de serviço e instituições beneméritas, mas para quê???

Se afinal sua vida mais completa se resumia a um sótão atulhado de papéis onde ele SENTIA que conseguia se comunicar com todo o universo... Em outros locais, ele até gostava de estar. Andar na praia de Canoa Quebrada, por exemplo, na Picinguaba, Pantanal, Chapada dos Guimarães, Peru, Amazônia, Ilha da Madeira, Versailles, Londres, Vale do Kiriri... No entanto, ali e apenas ali, ele sentia a conexão cósmica.

Fora dali, NOVES FORA, NADA!!!

 

Somos a cópia do Universo...

Mais uma vez lhe responderam os seus Átomos...

 

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