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"Ninguém
tem o direito de tirar a nossa inocência ou pureza!"
A frase ecoara por entre todo o Vale onde ficava a Aldeia dos
Salgados, uma aldeia muito antiga, onde viviam apenas dez famílias.
Era um local sagrado, na opinião do escritor e pesquisador,
um local que deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico
Mundial e ninguém mais deveria sequer imaginar mudá-lo
com o tal desenvolvimento.
Ale se lembrou
de tanta coisa bonita que já vira por ali, caminhando pelos
poios, semelhantes aos que existiam em Matchu Pitchu, no Peru,
vivenciando a maravilha do encontro daquele imenso vale com o
mar, lá embaixo, ou observando uma rocha que tinha a forma
de um rosto que lhe era muito familiar, mas que lhe deixava imensas
dúvidas ao mesmo tempo, pois era a forma como retratavam
Jesus.
Tempos atrás,
havia pedido a um dos companheiros de equipe que estavam documentando
todo o Vale, que filmasse aquela rocha, até porque ela
surgiu ali, à sua frente. Tão logo acabara de tomar
água de uma fonte, ao virar-se para olhar o resto do caminho
que teriam a percorrer, de repente viu a IMAGEM NA ROCHA... Lembrou-se
até da frase "Pedro, tu és pedra e sobre esta
pedra edificarei a minha Igreja!".
Ale ficou
encantado com a imagem, e, mais ainda, ao ver que o cinegrafista
que o acompanhava filmou com o maior carinho aquela imagem, dizendo
inclusive que um arco-íris estava se formando sobre a rocha
no exato momento em que a filmava...
Lembrou-se também de Lúcia, uma moça muito
simples, que colhia feijão e batatas em um dos poios, tendo
ao lado seu filho de uns 3 anos de idade, com uns olhos azuis
lindíssimos. Depois, ao voltarem da peregrinação
que fizeram em todo o Vale e Aldeia dos Salgados, Lúcia
os convidou a entrarem em sua humilde casa, feita com pedras de
nome salgado, e lhes ofereceu uma sopa feita com couve, feijão
branco, batatas... e pão caseiro.
Tudo isto deixava Ale muito emocionado, pois como era possível
gente tão humilde se preocupar com eles... A chuva os havia
apanhado em meio a peregrinação das filmagens. Lúcia,
na maior das inocências e pureza, abriu seu coração,
sua casa coberta com antigas telhas feitas de barro, paredes ainda
emboloradas pelo tempo que havia passado desde o nascimento da
Aldeia, e, nem sequer teve qualquer interesse, apenas queria os
acolher e lhes dar o pouco que tinha em sua casa.
Eram cenas
como esta que não deixavam Ale sossegar no que diz respeito
ao que acontecera ao mundo, principalmente o dito mundo civilizado.
Que civilizado que nada!!! Egoísta, isto sim.
Tão egoísta que os tais senhores do pseudo poder
detinham em si uma arrogância, uma maneira de ser e estar
que dava cabo da inocência e da pureza de tudo que estivesse
a sua volta.
Ale lembrou-se
que lá ao fundo do Vale encontrara uma igreja abandonada.
Disseram a ele que foi a primeira igreja da Camacha, ou seja,
da Freguesia ou Bairro onde ficava o Vale.
Mas
afinal, porque um local tão belo havia ficado abandonado,
para onde foram as outras famílias?
Imigraram, foi a resposta que lhe deram.
Mas por que tiveram que imigrar? O que os afugentou da Ilha onde
viviam?
Respostas
muito difíceis de serem respondidas ali, mas, com o passar
do tempo, Ale foi compreendendo que aquelas famílias eram
as famílias mais antigas da própria Camacha, um
dos bairros mais tradicionais da Ilha.
Curiosamente,
a NOVA IGREJA DA CAMACHA era um luxo só... Então,
tinha cabimento a primeira ter ficado abandonada?
Lembrou-se
de São Francisco de Assis a recuperar ermidas e capelas,
abandonando todo o luxo da sua família, para descobrir
que a Ecologia, a Natureza, a Vida ao ar livre, e tudo o mais,
eram os maiores companheiros da sua Fé..."Irmão
Sol, Irmã Lua..."
As memórias
daqueles tempos vinham ter aos seus hemisférios cerebrais
enquanto percorria a Levada dos Caniceiros, um canal de irrigação
que unia Gaula, Camacha e Caniço, três bairros ou
freguesias que ficavam entre o sudoeste, bem a beira mar, e as
serras eternas que iam até o Pico Ruivo, que tinha 1.860
metros de altitude e ficava entre o Sul e o Norte da Ilha.
A caminhada
lhe trouxera uma questão seríssima a ser respondida,
pois que a inocência e a pureza, sem dúvidas, cada
dia mais estavam sendo corrompidas muito cedo na maioria dos seres
humanos.
Buscar uma
resposta ali, andando pela levada, seria realmente um grande desafio
para o peregrino das estrelas, que não se acanhava quando
se tratava de descobrir alguns porquês, sem lógica
alguma e que prejudicavam imenso o percurso eterno e pacífico
do chamado ser humano.
Logo lhe vinha
a imagem de Coringa e o Gato Zé, brincando justamente à
hora de comerem... O Gato Zé se atravessava à frente
de Coringa serpenteando entre ele e o prato, impedindo assim que
ele tivesse acesso à comida; e a brincadeira, ao fim e
ao cabo servia para ambos demonstrarem o quanto tinham de carinho
um pelo outro, até que Coringa deixava o Gato Zé
se deliciar com as guloseimas que Ale havia colocado no prato,
devagarzinho ia se aproximando, até que conseguia mostrar
ao Zé que poderiam juntos saborear a refeição
sem nenhum problema ou distração...
Às
vezes ele ficava pensando se em outros locais haveriam cães
e gatos se dando tão bem, isto sem falar nas cinco Águias
que de vez em quando apareciam por ali e se faziam de casa, indo
sempre de galho em galho dos pinheiros até ganharem a coragem
de se arremeterem em um vôo rápido até o imenso
jardim que se confundia com o bosque de pinheiros, e depois de
aterrarem, uma ou mais ficavam ali, como se realmente se sentissem
em casa. E olha que tinha Coringa, o Gato Zé, Xandy, um
Pastor Alemão que adorava brincar com Coringa e com todos
da casa... Para as águias e para todos que por ali passavam,
realmente havia algo diferente ali... O que seria?
As crianças
traziam uma pureza e uma inocência que aos poucos iam se
perdendo em sua vivência. Além das crianças,
havia muitas pessoas que demoravam a aceitar este mundo descabido
e viviam em plena inocência e pureza, mesmo correndo grandes
riscos de serem taxadas de desenquadradas, ingênuas, sem
noção de realidade, abstraídas da vida, enfim,
uma série de etiquetas que o mundo costumava dar a quem
conservava o que a maioria havia perdido.
Era muito,
mas muito curioso isto... Como era possível alguém,
que nem era inocente nem puro, julgar outros que ERAM ASSIM, NASCERAM
ASSIM E MORRERIAM ASSIM?
Será possível que o mundo fora criado e desenvolvido
pelas sociedades, anulando justamente os fatores primordiais para
que todos vivêssemos em paz, harmonia, tranqüilidade
e, principalmente, em verdadeiro estágio de pureza d'Alma???
Ale parecia
querer provar o improvável de um lado e o óbvio
do outro.
Como foi que
tudo isto aconteceu?
Como foi que
tudo isto começou?
A levada seguia
seu rumo, cumprindo a sua missão de levar água do
norte ao sul da Ilha. Eram mais de 2.000 quilômetros de
levadas construídas a mão, que lembravam os canais
de irrigação de Atlântida.
Com passos firmes, seguia em direção ao ponto em
que a levada se bifurcava com um túnel que dava acesso
a uma encosta toda florida na primavera. Seguindo por ali, o nosso
peregrino foi admirando cada uma das flores, sentindo seu aroma,
percebendo as gotículas de água das fontes naturais
que nasciam entre as rochas, cintilando ao lusco fusco do sol
que já ia se escondendo por entre a variedade de árvores
centenárias, que ali eram em grande quantidade. Subia pelas
pedras do caminho, tomando cuidado para não escorregar;
de vez em quando passava um turista ou um habitante dali mesmo,
seguindo também seu caminho, cada qual com a sua história,
uns de férias, outros chegando ou partindo. Um caminho
estreito, por onde só podia passar uma pessoa de cada vez...
Era difícil
subir, forçava os músculos da perna. Então
ele resolveu descansar em um local, onde se apercebeu havia um
antigo tanque de lavar roupas, feito de pedra e ao rés
do chão. A água vinha de uma gruta ali existente,
onde ele aproveitou para refrescar a cabeça, tirando seu
chapéu envelhecido e molhando os cabelos grisalhos, outrora
negros como a noite da lua nova...
A pureza da
Lua, do Sol, das Estrelas, da água, das matas, do próprio
mar, de todo universo, era um imenso tesouro que tínhamos
a nossa disposição... Quantos e quantos exemplos
tínhamos para mostrar ao mundo o quanto vale a pena preservar
esses valores eternos.
Uma folha
se desprendera de uma das árvores e vinha levemente se
quedando em direção à corrente de água
que serviu no passado às mulheres que ali iam lavar suas
roupas, sem nenhuma delas se preocupar qual estaria mais pura
ou mais suja do que a outra. O importante era o convívio
que ali tinham, onde se permitiam conhecer melhor a própria
vida e a maneira que a vida lhes dera para que pudessem, além
de lavar roupas, verem o tempo passar deixando que a sujeira e
tudo o mais fosse levado pelas águas que se uniam ao seu
labor, como se tudo fizesse parte de uma integração
tão natural como a folha que agora caía, sem se
preocupar onde cairia, mas com a certeza de que fizera a sua parte
enquanto estivera junto à árvore
A ÁGUA
PURA levava toda a sujeira por entre as pedras que até
lisas ficaram de tanto que as lavadeiras ali descarregavam a sua
negatividade, sem nem se aperceberem que aquele exercício
era uma catarse tão natural e tão integrada à
natureza que realmente lhes deixava muito mais aliviadas. Curiosamente,
havia quem delas tivesse pena. Nem sabiam do quanto aquele exercício
era muito melhor do que a prática de aeróbica em
uma academia.
Era interessante
notar como o tempo havia evoluído para um consumismo realmente
sem nexo... Primeiro comiam tudo sintético, depois pagavam
para tirar todas aquelas toxinas do organismo, e, se parassem,
iriam ficando cada vez mais intoxicados, porque o organismo se
habituara a se exercitar fora da NATUREZA, em recintos com ar
condicionado. Tudo errado... realmente, o mundo cada vez ia ficando
mais e mais errado.
Errante era
o ser que buscava uma resposta e não a encontrava, mas
aos poucos a própria natureza ia colocando-o novamente
na sintonia de uma energia pura e inocente... e não sente...
Era realmente
fascinante o mundo que Ale descobrira e, se calhar, também
era o das pessoas que estavam envolvidas com o sistema. O importante
era que cada qual vivesse a vida como achasse melhor.
Lembrou-se
de uma frase muito antiga que seu avô lhe dizia: "Se
alguém lhe pedir para saltar em um abismo, você salta?"
Perder a pureza
e a inocência é perder o que de mais belo a natureza
e o universo nos contemplou.
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