BICHO DO MATO

 

"Você está parecendo um bicho do mato!"

"Eita, mas isto é jeito docê falá com o Ale?"

"Uai, se ele cada dia mais fica desse jeito, se fechando em seu canto sem nem querer saber de ver gente, o que você queria que eu dissesse?"

Ale lembrou-se desta discussão tempos atrás, lá pelas bandas da Picinguaba, quando dois conhecidos passaram uns dias em férias por ali e se aperceberam que ele não era mais o mesmo Ale que viveu em várias capitais do mundo.

Havia se recolhido ali e não tinha quem o tirasse daquele eremitério.

Passaram-se 26 anos até ele relembrar a cena entre um seu conhecido da cidade e um caiçara que vivia por ali. Caçador, tinha um cão do qual Ale gostava muito, que se chamava Busca Longe, ou seja, o cão se embrenhava na floresta e ia buscar a caça estivesse ela onde fosse, e o seu dono, Dito Baita, o seguia até os cafundós do mundo pois sabia que Busca Longe não dava alarme falso.


A expressão bicho do mato agora tinha uma entonação tão forte que o escritor teve que parar para entender afinal o que ela trazia escondida em si mesma. Ora, um bicho da cidade, quando existia, em geral era praga. Um bicho do mato em geral é um ser vivo muito interessante, colorido, cheio de vida, carregando em si mesmo a fotossíntese até para dentro das cavernas mais escuras, o que Ale sabia, pois já andara muito por este mundo de meu Deus. E sabia que em algumas cavernas, submersas ou não, a forma da fotossíntese lá chegar era essa mesma: ser trazida por seus habitantes que a recolhiam quando estavam expostos ao sol, levando então esta atomicidade para o mais fundo das cavernas sem nem se aperceberem que assim propiciavam luminosidade e cor ao que os rodeava.

Ficou lembrando dos animais que vira em pleno Pantanal, Amazônia, Peru, tantos e tantos oceanos, repletos de maravilhosos seres marítimos que até o inspiraram a escrever: "Quem nada contra a correnteza preserva a espécie doce!"

Era verdade, os peixes de água doce aprenderam a nadar contra a correnteza para a espécie doce preservar.

Até isto era de se gravar.

E o colorido das asas das borboletas, que se confundiam às vezes com o colorido das flores que elas mesmas polinizavam?

O cheiro a terra molhada, o sabor da gota de orvalho, pura como uma criança ao nascer, o cheiro a lenha queimada no fogão em que preparava o café logo de manhã cedinho, quando os pássaros nem tinham ainda amanhecido o dia, o cheiro a fruta no pé, quanto de beleza havia no MATO... que nem era preciso as pessoas terem nada para as distrair ou iludir como nas cidades. Ali tudo era natural, saudável e, sem dúvidas, integrado a um todo eterno.

Até a cobra coral era uma lindeza, toda colorida, serpenteando por entre as folhagens que lhe permitiam ir até a beira do rio saciar sua sede.

Os pássaros com suas plumagens, cada um mais bonito que o outro, dando mostras da sua felicidade por viverem ali onde a natureza os havia gerado e não trancados em gaiolas para que os homens pudessem ouvi-los cantar nas cidades, ora esta!!!

Uma vez Ale entrou em uma loja em pleno Bixiga, São Paulo, e começou a soltar todos os pássaros e animais que estavam presos. Quando o dono da loja viu, era pássaro, gato, cachorro, tartaruga, pato, ganso, papagaio, tudo voando, andando, saltando, para tudo quanto é lado, e o povo que passava na rua achou a atitude dele lindíssima, pois afinal também não gostavam de ver a bicharada toda presa ali, esperando um novo dono... Foi um pandemônio de um lado e uma festa do outro.

O dono ameaçou Ale de chamar a polícia, e ele comentou: "Pode chamar, eu espero eles chegarem. Vamos ver quem tem razão, se o senhor que depreda a natureza ou se eu que a defendo!"

É claro que o homenzinho caiu em si e o deixou ir embora, pois nem licença tinha para ter aquela loja, quanto mais documentos que provassem a compra legal de todos aqueles BICHOS DO MATO.

Se o povo da cidade percebesse bem, até os pássaros que viviam na maioria das cidades eram totalmente diferenciados dos que viviam ao ar livre nas florestas. O cântico era diferente, a forma como se aproximavam das pessoas, o que na mata dificilmente ocorria uma vez que as espécies só se aproximavam quando tinham mais familiaridade com esta ou aquela, pois a lei da sobrevivência era diferente e mais autêntica. Poderia parecer que eram mais agressivos, no entanto, tinham algo que lhes era muito natural, ao passo que os da cidade se habituavam a contar com alguém para os alimentar; até mesmo o enorme elefante dentro de um zoológico tinha que ficar submisso ao tratador, pois como iria sobreviver se não tivesse um comportamento adequado às circunstâncias?

Tudo isto ficou dando voltas na cabeça de Ale, pois ele tinha certeza que realmente o povo da floresta vivia muito melhor que o povo da cidade, e ai de quem quisesse fazê-lo mudar de opinião...

Bicho do Mato, esta é boa... disse para si mesmo, enquanto colocava água para ferver no fogão a lenha. Ia fazer um cafezinho à moda árabe, sem coador, e mesmo integrado na União Européia vivia em meio a um bosque, cercado de natureza por todos os lados, seu fogão era à lenha, ao estilo dos que aprendera a ver e utilizar lá no meio do mato. Fosse onde fosse, tinha coisa mais gostosa?

O calorzinho do fogão aquecia tudo ao seu redor, dando um clima realmente muito saudável ao espaço onde vivia.

Preparou seu banho em uma ducha que era aquecida também por um sistema de canalização que passava pelo fogão, e enquanto se banhava cantava "Saudosa Maloca", de Adoniran Barbosa, O Poeta do Bixiga!

"Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar, aqui onde agora está, este edifício alto, era uma casa velha, um palacete assobradado, foi ali seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca, construímos a nossa maloca, mas um dia, nóis nem pode se alembrar, vieram os homens com as ferramentas, que o dono mandou derrubar.
Peguemu todas as nossas coisas, e fumo pro meio da rua, apreciá a demolição, que tristeza que nóis sentia, cada taubua que caía, duia no coração.
Mato Grosso quis gritar, mas de cima eu falei: Os home tá cum a razão, nóis arranja outro lugar.
Só nus confurmemo, quando o Joca falou: Deus dá o frio, conforme o cobertor!
E hoje nóis pega as paias, nas gramas du jardim,
E para esquecer, nóis cantemos assim!
Saudosa Maloca, Maloca querida, dundin donde nóis passemus, dias feliz das nossas vidas.
Joga as cascas pra lá, ziriguidum, joga as cascas pra lá, ziriguidum, joga as cascas pra lá meu bem...

Sempre que cantava aquela música se lembrava do quanto o povo da Cidade também tinha sua maneira de fazer crítica a um progresso desenfreado, e dava graças a Deus por isto, afinal, se não fossem esses poetas populares e outros artistas ou contestadores como seria terrível ser BICHO DA CIDADE.

O Bicho homem convertido a um ser sem vida natural, se adaptando cada vez mais à ausência de estações do ano, ou seja, fizesse sol, chuva, vento, frio ou o que fizesse, ele estava à mercê do sistema instituído pelos governantes e mandatários, comandantes terrenos que nem tinham dúvidas de que viver em uma Ilha à beira mar era uma maravilha. Tanto é que nas paradisíacas Ilhas de Seychelles e tantas outras, inclusive na que Ale vivia, fazer turismo era muito caro. Agora imaginem: já que ele teria que ficar ali uns tempos, decidiu que ficaria lá na montanha, em uma zona muito arborizada, com tudo quanto é bicho do mato a lhe fazer companhia e quem quisesse que o fosse visitar. Porque assim como na Picinguaba, quanto mais passavam os dias, menos ele se dispunha a sair para ver fosse o que fosse nas cidades. Caminhava sempre pelo mato se sentindo um verdadeiro BICHO DO MATO.

Saiu do banho enrolado em uma toalha, entrou no quarto construído todo em toras de madeira, e estava se preparando para colocar as meias quando Coringa adentrou o quarto esbaforido, saltando para cima dele, que precisou até se deitar com o peso do seu amigo sobre seu tórax... Coringa lambia suas faces e o chamava como se algo houvesse ocorrido e ele precisasse ver.

Acalmou seu fiel amigo, e ao ter completado sua preparação para mais um dia, foi com ele, passando pela cozinha, varandão, jardins. Coringa seguiu à frente até o celeiro, onde Neblina, ainda deitada, acabara de ter um potrinho. Dourado, como a luz do sol que os pássaros chamaram para amanhecer o dia.

Lá no Rio Grande do Sul, Lúcia Beatriz estava dormindo, sonhando como seria a Casa do Ermitão da Picinguaba... um amigo que ela conhecera porque um dia ele contestou um pessoal que se achava mais conhecedor do que qualquer outro a respeito da vida e do que realmente é vida, cura quântica, auto-cura, mestres ascensionados, gurus, duendes, fadas, anjos, tudo aquilo que o povo do mundo precisava ter na simbiose do que chamavam vidas, outras vidas, ou misticismo, como diziam os que compreendiam que cada qual tinha uma maneira de se identificar com o seu Deus ou... deuses.

A contestação de Ale Mohamed fez com que aquele grupo de pessoas o considerasse LOUCO, uma pessoa sem nexo naquilo que estava dizendo, sem parâmetros estipulados, sem aquela coisa que "amarra" as pessoas a um dogma e ai de quem as quiser mudar.

Pois é, Bicho do Mato também era uma canção que fazia fundo aos sonhos da gaúcha descendente de alemães que se tornara amiga de Ale, sem nem sequer imaginar porque, mas sabendo que aquela contestação um dia iria dar frutos, do MATO!

O Ermitão da Picinguaba é um SER que habita o meu SER, costumava explicar Ale Mohamed... Isso, quando tinha paciência de explicar.

 

 

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