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Naquela
tarde, acabara de preparar todo o paiol onde ficavam
as ferramentas, a charrete, o feno, o milho, quando
ouvi um ruído trazido pelo vento ao dirigir-me
em direção à nossa varanda...
A casa era um chalé em estilo de montanha,
quase toda feita em madeira rústica. A varanda
onde nos sentávamos para ver o pôr-do-sol
ou para conversarmos, ficava de frente para uma vasta
extensão de pinheiros e acácias, com
uma vegetação que lembrava algum lugar
florido que nunca eu definira qual... Apenas sabia
que ele existia e lá eu existira...
Aos
poucos fui me aproximando da varanda, atento ao ruído
característico da chegada DELE... Sentei-me
na cadeira de balanço, respirei suavemente
pelas duas narinas, fechei os olhos e senti a Sua
chegada, como sempre Ele chegara... Ao abrir os olhos,
apercebi-me que a outra cadeira, aparentemente vazia,
também balançava... Sorri em silêncio
e admirei-O... Como era possível eu ser merecedor
daquela visita? Isto eu perguntara duas vezes no passado
até que na terceira, em Seu modo de se comunicar,
Ele dissera: "Não se questione mais!"
Aceitei aquele ensinamento; sempre que alguém
com quem estou me comunicando, se eu perceber estar
na sintonia que estou quando estou com Ele, e se este
alguém, por motivos humanos não compreender
seja o que fôr a respeito da Divindade que nos
habita e do mundo ao nosso redor, eu, para ajudar
esta pessoa, digo: "Não se questione,
agradeça!"
Dona
Silvana, nossa grande companheira Africana desde a
nossa União, sempre que Ele chegava vinha até
a varanda e silenciosamente servia o chá, as
bolachas feitas por ela e a água fresca...
Assim como chegava à varanda, saía silenciosa
e respeitosamente, no entanto ela, como Africana que
era, via muito mais do que nós todos lá
de casa... Era curiosa a forma como a nossa vida foi
se fundindo e se entrelaçando... como uma toalha
da Ilha da Madeira, muito bem bordada com a energia
certa no ponto certo... com a energia certa... Ele
saboreava os quitutes e com Seu olhar profundo agradecia
em especial a água fresca e purificadora...
Ficávamos ali um tempo sem fim, até
que Ele decidia ir-se em direção ao
Sempre...
Como
em um sonho, eu despertava daqueles momentos sublimes
e percebia que Coringa, o nosso fiel Cão, estava
mesmo ao meu lado adormecido e sonhando... talvez
com sua amada Diana... ou com Ele... A Paz e a Harmonia
daqueles momentos é que me fizeram entender
o quanto precisava registrá-los para que um
dia alguém soubesse da maneira como Ele de
fato É... da maneira como Ele age para retribuir
o pouco que lhe dedicamos, e o muito que Ele nos oferece
sempre... Enfim, ali renasceu o escritor, o Ser que
habita o meu Ser e que necessita dizer, falar, mostrar,
sem alarde, sem energias materiais, que nada mais
são do que a somatória da energia primeira
e cósmica; apenas com um sentido que é
invisível aos olhos e sublime para o nosso
coração.
Você
chegou até a varanda e trouxe-me o manto de
lã para cobrir minhas pernas, sentou-se na
cadeira onde Ele havia estado e aos poucos foi tricotando
um pullôver que estava fazendo para o nosso
netinho...
Quantos
anos se passaram e eu nem me apercebera que a vida
havia sido tão longa e ao mesmo tempo tão
curta... como um piscar de olhos estávamos
já beirando os sessenta anos... e por incrível
que pudesse parecer sentia-me um jovem... exatamente
igual àquele que apanhava carona na Maria Fumaça
em Tremembé só para ir até o
Horto Florestal visitar a Floresta... local onde me
transportava para Urânia, o Planeta Horto, de
onde eu tinha certeza que havia vindo... e onde eu
a conhecera pela primeira vez... desde o dia em que
Eolo e Druza se cruzaram na esquina da existência.
Desde o momento em que Druza chorara criando com suas
lágrimas Caciopéia, nós dois
nunca mais iríamos viver distantes um do outro...
poderíamos estar distantes... mas, nunca mais
nos afastaríamos no sentido do maior sentir...
sente...ir.
Coringa
deu um suspiro e lembrei-me das "caçadas"
que fazíamos pela floresta, ele ganindo ao
sentir a presença de um coelho ou de um animal
maior, iniciávamos uma perseguição
que parecia nunca mais ter fim, até o momento
em que após saltar, ladrar, correr, uivar,
estatelar-se em um baixio e logo depois recuperar-se
reiniciando a perseguição à presa
que, fôsse o que fôsse tinha mesmo que
dar nas patas, senão... Atrás dele seguia
eu com a minha juventude e saúde física...
além da satisfação que tinha
em seguí-lo por entre os vales e montanhas
que a natureza nos propiciava... Quem nos via sempre
nos seguia e participava das "caçadas"
ou então nos estimulava a continuar... até
o momento em que Coringa com seu dorso negro transpirando,
as três patas muito bem assentes no chão
acuava a caça e ali ficava esperando que eu
chegasse; neste momento ele olhava sem perder a caça
de vista como se perguntasse o que iríamos
fazer... Eu sorria e dizia: "Deixe-a partir que
amanhã começaremos tudo de novo!"
...e Coringa relaxava a guarda, permitindo que a caça
partisse em segurança...
Aquilo
tudo fazia parte de uma certa catarse que nos alimentava
de energia o corpo e limpava-nos dos excessos que
o dia-a-dia nos trazia para nossas vidas humanas...
Ao mesmo tempo, após toda esta correria e exercícios,
sentíamos como se renascêssemos para
uma Nova Vida.
Acariciei
com meus dedos já enrugados o pelo também
já envelhecido do Fiel Amigo do Sempre... Se
ele renascera e fora o primeiro, não importava...
o que importava é que o sentimento era o mesmo
sempre. Afinal ele também nunca demonstrou
se tinha dúvidas sobre a minha reencarnação,
e todas as vezes em que o "Coringa" vinha
ter a mim era como se nos reencontrássemos
novamente, tivesse ele um mês de vida ou estivesse
abandonado pelas ruas de uma cidade, como ocorreu
quando eu estava escrevendo "O Planeta Exterminador",
em forma de uma peça de teatro e precisava
de um cão para fazer o papel de Coringa...
Tão logo saí à janela ele estava
sentado do outro lado da rua a olhar-me como se estivesse
dizendo: "Você me chamou?" Entrou
em casa e nunca mais nos abandonou... Era engraçada
a forma que ele tinha de defendê-la quando você
saía com ele para ir às compras ou a
passear... você mesmo comentava que ele tinha
um lado muito parecido com o meu... pois É,
o Coringa Era o Coringa, Sempre! E Nós somos
nós Sempre!
Lembro-me
também quando íamos à pequena
vila próxima da fazenda e, ao preparar a charrete
com Sereno, Coringa imediatamente ali se aboletava...
Neblina, ao partirmos serpenteando a cerca, pela estradinha
de terra ia acompanhando nosso percurso e relinchava
como se já sentisse saudades de Sereno... Coringa
enfiava-se entre nós, os dois como se a dizer
que Sereno tinha que ir mais devagar... até
que chegávamos à vila ... e ele saltava
da charrete correndo em direção da adega
onde ficava Diana, sua amada... Eu ia ao ferreiro
ver o que poderia encomendar para acertar os arados
e a charrete, você ia ao empório e aproveitava
para conversar com suas amigas... Depois eu passava
no barbeiro e pedia para dar um trato na velha barba...
até o momento da partida quando então
recolhíamos as compras e tudo o mais na charrete
e assobiávamos chamando Coringa, que vinha
acompanhado de Diana com um ar de quem perdeu a cauda...
A despedida era uma tristeza que nos comovia, pois
ela nos acompanhava ao lado da charrete e ele latia
sem parar... Ao ver a cena, uma lágrima corria
pelo meu rosto e caía sobre a sua mão
...que agarrara a minha... Coringa então metia-se
entre nós e era tudo muito emocionante e forte...
O amor universal é assim, atinge a todos seres
do Universo... e comove...
Naquela
semana, ao final do sábado, estava cochilando
na cadeira em frente à lareira, quando ouvi
o ruído de carros se aproximando. Dona Silvana
saiu da cozinha e dirigiu-se à varanda, dizendo:
"São meus fiuuiiiuus... são meus
fiiiiiuuiiiuus..."
Eram
nossos filhos e netos que estavam chegando... Você
desceu do sótão onde preparava um dos
quadros que estava pintando e com as mãos ainda
sujas de tinta e um pincel na mão foi receber
a rapaziada...
Eu
aos poucos fui me apercebendo de tudo, acendi o cachimbo...
Percebi que o fumo já estava muito passado,
deixei-o de lado, fui até a varanda e já
estavam todos ao seu redor contando as novidades,
numa euforia como se não nos víssemos
há séculos. É curioso isto no
seio familiar, ficamos algum tempo sem nos ver e parece
que passaram séculos... Quando nos habituamos
a estar juntos parece que temos muito medo de nos
separar novamente... como se o cordão que nos
liga universalmente fosse exatamente igual ao cordão
umbilical...
Após
os cumprimentos e a alegria em ver nossos filhos e
netos, entrei para a sala onde nosso filho já
se habituara a chegar, sentar-se e começar
a comentar sobre a sua vida... os negócios...
as pesquisas sobre a vida no mar e nas florestas,
temas que ele adorava e curtia como um hobby existencial...
Nossa filha subia com você ao sótão
e Dona Silvana para variar estava lá na cozinha
preparando alguma coisa com nossos netinhos... Acendi
um novo cachimbo, ofereci um licor ao nosso filho
e ficamos em longa conversa... até que foi
servido o jantar. Nosso neto em meu colo, de repente
charpinhou a sopa... Você olhou para o velho
colete verde e vermelho à escocesa e sorriu...
Lembranças emocionaram-me e uma lágrima
veio cair sobre o cabelo negro do netinho... Sorvi-a
com os lábios e aproveitei para beijá-
lo na cabeça... ele continuou como se nada
estivesse acontecendo... e o jantar em alegre cavaqueira
por ali seguiu-se até altas horas...
A
uma dada altura estava sentado defronte à lareira,
meio adormecido, quando ouvi um barulho vindo da cozinha
e fui acordando... lentamente... a porta da cozinha
se abriu e vocês vinham todos em meio à
escuridão sendo iluminados por pontinhos luminosos...
e cantavam Parabéns a você... Era o meu
aniversário e nem me lembrava... coisas da
vida... Todos à minha volta... apaguei as velinhas
e ao colocar o netinho no chão, que me ajudara
a apagar todas velinhas, quase fui derrubado por Coringa
que também queria me cumprimentar... Você
deu-me um beijo e entregou-me um pacote com fita dourada,
nossa filha deu-me um com fita prateada e aos poucos
fui abrindo um por um...
O
seu, era um colete novo nas mesmas cores... o qual
vesti de imediato, dobrando o outro com muito respeito
e deixando-o sobre o sofá... O outro pacote
tinha um cachimbo Savinelli com fumo Half and Half...
Logo
preparei-o, agradeci a todos e fui sentar-me ao pé
da lareira, dando novas baforadas azuis... que se
enrodilhavam... Você preparou dois pedaços
de bolo e ofereceu o primeiro a Dona Silvana, o outro
ao netinho e depois serviu os outros com o mesmo carinho
de sempre...
Estávamos
já indo dormir quando um ruído lá
fora e uma certa algazarra nos chamou a atenção.
Eram Coringa e as crianças, que estavam olhando
a graça que ele fizera com a boca toda suja
de bolo e uma fita ao redor do pescoço...
ELE
estava ali e era o nosso PRESENTE DA ETERNIDADE...
e assim nasceu "Deus, meu Pai, meu Amigo"
...o Verdadeiro Amigo da Eterna Idade...
Para
que acreditem basta fazerem uma expiração
e senti-LO!
(A
primeira inspiração deste texto ocorreu
em meio ao Pantanal do Mato Grosso do Sul, no Brasil,
no ano de 1985).
ERMITÃO
DA PICINGUABA
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