PARTE 2

A filmagem não aconteceu pois a mãe não aprovou a "grande idéia" -– o pai não gostaria de ver a filha no cinema, mesmo que fosse um filme sobre a escola e a vida de uma rua tradicional de um bairro de São Paulo. Por diversas vezes voltara ao apartamento para comer coalhada e tirar um sarro, pois não podia passar disso, ela era virgem e nem pensar em "atropelar", era muito bom o que faziam…

Até que um dia chegou à porta do prédio e a viu subindo as escadas de mãos dadas com um "senhor"…era um rapaz de seus 23 anos.
-– Oi, esse é o Plínio.
Acabou-se o que era doce… Ela permanecera em sua mente, subindo a escada com o Plínio. Um dia encontrara-a na rua Pirapitingui, ela vinha da escola com os livros às costas…
-– Oi! Você sumiu! O que aconteceu? Enjoou da coalhada? Ou está bravo comigo!?
Apanhou sua mão e subiram de mãos dadas… o calor subindo junto… chegaram à porta do prédio… o nome da avó dele bem na entrada… OLINDA… EDIFÍCIO DONA OLINDA… o mesmo nome da mãe dela… Coincidência?
-– Vamos subir?
-– Não! eu preciso estudar matemática, tenho exame amanhã.
-– Está bem… apareça… venha um dia.
Beijou-o no rosto… venha um dia, apareça! Nunca mais a viu, fora estudar interno durante 5 anos e nunca mais a viu… Mas a mocinha morena da rua São José nunca saíra de sua cabeça…
Um dia vinha com uma turma carregando um balão que apanharam na invernada, e lá estava ela na varanda. Parou, e com um gesto nobre lhe ofereceu o balão. Ela sorriu e o chamou…
-– Vem cá!
Ele foi…
-– Como foi que o apanharam?
Sentou-se em um dos degraus da casa, colocou o balão no assoalho da varanda, tirou o chapéu que havia ganho do tio Jarbas…
-– Bem, eu estava empinando meu quadrado, que aliás tem um metro de diâmetro, quando Totó começou a latir e saltar mais do que quando vê preá. Olhei para o céu e lá vinha esse bitelão saindo das nuvens, tem mais de 50 folhas ...é enorme, pensei comigo mesmo. Amarrei a linha do quadrado em um tijolo, gritei para o Dago, que estava "roubando laranja", e lá fomos nós… Corremos uns 200 metros pelo capim gordura da invernada, até ouvirmos atrás de nós os gritos da turma da rua Almeida. Eram o Alemão, o João Cuco, o Mosquito, uma turma imensa... Só eu, o Dago e o Totó, nosso valente Totó, corremos saltando os brejos e as moitas, entramos e atravessamos a mata inteirinha, as cobras rastejaram de lá para cá, subi em uma enorme pedra cheia de limo e o avistei. Estava indo em direção ao cipreste da bica… Corri como um gamo assustado, saltei para o galho do cipreste, atrás de mim os gritos: "ninguém rasga". O Dago torcera o pé mas continuava a correr… Totó latia e investia contra os inimigos, e o Duque, aquele vira-lata sarnento, cego de um olho e manco. Eu subia galho por galho feito um sagüi, sem nem ouvir nada, olhando o "mixirica" vindo em direção ao cipreste… Ao chegar ao meio da árvore, ouvi um barulho de papel amassando… ele já havia encostado nos galhos… subi mais três galhadas e alcancei sua boca, que tinha, graças a Deus, uma tocha apagada… Foi a neblina… Aos poucos fui recolhendo-o e quando percebi ele era maior que eu… mas pausadamente fui enrolando-o tomando muito cuidado para seus coloridos papéis não se rasgarem. Quando estava todo enrolado coloquei-o embaixo do braço e comecei a descida… 40 metros… estava bem alto e eu nem percebera o quanto subira… é uma emoção. Lá embaixo a gritaria começara. Dago sozinho conseguiu com um berrante atrair a atenção de nossa turma, que agora dava a maior lição na turma da rua Almeida…
– Vamos todos nos unir e soltar o bitelão juntos! eu gritei lá de cima.
Todos olharam-me e acharam uma boa idéia… Quando cheguei à terra, todos me carregaram nos ombros fazendo a maior festa… agora estamos indo para a garagem do seu Patrício, fazer uma tocha nova e uns pequenos remendos…
Ela o ouvira o tempo todo silenciosa e curiosa pelos seus feitos. Como ele era corajoso, pensava.
-– Parabéns!…Quando vão soltá-lo?
-– Hoje à noite, aqui em frente, em sua homenagem, está bom assim?
-– Em minha homenagem?
-– É!!!
Ela sorriu, ele também, e o amor nasceu para os dois… Foram três meses de férias, que valeram uma vida… o primeiro dia no Cine Ipê, assistindo a sessão do Zorro com o dinheiro que conseguiu fazendo carretos na feira… ela ao seu lado, as mãos juntas, o seu cheiro de cabocla, fogão de lenha, os intervalos que faziam se separarem para as pessoas não perceberem, as festas em que se escondiam e se beijavam escondido, os passeios ao Horto Florestal na Maria Fumaça com Seu Patrício e a esposa tomando conta da garotada, que levava lanche para lá fazer um pic-nic à beira do grande lago…Três meses de puro amor, amor infantil, juvenil, amor espiritual e sonhador, cheio de ir e vir aos píncaros do universo com um simples olhar de Sua Eterna Namorada. Sem a malícia da carne que apodrece e o bem esquece, AMOR verdadeiro como o próprio Universo, que em milênios perpetua a Paz da divina existência sem molestar ninguém, Amor de ir levar à escola e ao cinema ou Amor de colher uma flor e ofertar com um beijo… Amor como não se vê mais hoje em dia, pois os homens têm vergonha de mostrar que amam… Amor de dois seres que se escolheram só para sonhar.

Um dia o pai burguês, frio e calculista, passou pela feira com seu Mercuri 51, conversível de merda, e o viu…
-– Édison!!!
O grito ecoou em seus ouvidos, correu com o carrinho de mão até não mais poder, fez as entregas à alemã da rua São Pedro, pediu ao Dago para cobrar e ficar com o carrinho, correu pela Invernada inteirinha, chegou à casa da sua avó cega de um olho e humilde como um São Francisco… ela chorava…
A avó que ele tanto amava chorava… Por quê?
-– Que foi vó?
-– Teu pai passou por aqui e disse para eu arrumar suas malas que você nunca mais vai passar férias aqui, pois eu não sei como educá-lo, "onde já se viu fazer carreto na feira…" foi isso que ele disse, eu sempre achei que você gostava de fazer carreto, é bom para sua vida aprender essas coisas práticas e sadias… Nunca mais você virá passar férias comigo…
-– Nunca mais?!!!

E assim aconteceu. Nunca mais durante sua infância e juventude, nunca mais a viu; A vida perdeu o sentido, estudou interno 5 anos, depois fez Academia Militar, quando ia sair oficial se revoltou contra o sistema, foi morar na praia, tornara-se um guerrilheiro, um revoltoso que a tudo e a todos combatia. Aparentemente era feliz, mas no seu interior ficou a imagem da sua primeira namorada…Tudo perdera a razão de ser e estar.
No início o pai forçara-o a passar férias no Palace Hotel de Poços de Caldas. Triste como um passarinho que perdeu os filhotes, ele ficou doente, teve nefrite, ficou seis meses na cama. A mãe, preocupada com ele e os outros 5 irmãos, nem sabia o que fazer, pois o pai era ditatorial e ninguém poderia contrariá-lo. Até os doze anos viveu com a família, depois o internato, a escola de cadetes com 19, a revolução de 64 que o fez revoltoso e revoltado, a praia, o cais do porto, as prostitutas, as pessoas drogadas, os pescadores, um mundo que ninguém viveu com tanto desprendimento e intensidade… No fundo, no fundo queria Sua Eterna Namorada. Nunca mais a vira…

Já com 44 anos de idade, estava em Rondonópolis - MT, depois de ter viajado boa parte do mundo de Deus, casou-se, divorciou-se; o casamento durara um dia, a mulher era materialista, ele sonhador, poeta, compositor, trabalhava como Diretor de Criação Globo local, estava mais uma vez vivendo, como costumava dizer, vivendo algo insosso, mas que era novidade, e por ser novidade o atraía, mas não fazia contratos, as pessoas não lhe pagavam, ele brigava, jogava tudo para o ar, ia para o hotel… Quantos hotéis conhecera em sua vida, daria para montar uma grande companhia de turismo… Dinheiro não o comprava... o que gostava mesmo era NAMORAR, com todas as letras e sonhos… Conhecera várias pessoas interessantes em sua vida… 44 anos é uma vida… idade do LOBO, e que Lobo…
O dono do Hotel era seu amigo, Lima Limão era o seu apelido; sentavam-se na Esplanada do Hotel e lá ficavam lembrando de São Paulo, do Liceu, dos padres, falando de cavalos, fazenda… Nesse dia estava falando do pessoal que fizera a EXPO AGRO com ele e que iriam passar para apanhá-lo e levá-lo para Cuiabá, onde morava nos últimos 3 anos. Foi lá que escreveu Chapada Aqui Pantanal Há lá, foi lá que constatou a maior Oligarquia política que já vira, com 4 famílias dominando a população, sem escrúpulos, inclusive Dante de Oliveira, que fora ministro, era agora o prefeito de Cuiabá; muitas coisas erradas ocorriam por lá e ele não gostava disso, por esse motivo lançou o livro criticando O PODER.
O pessoal não aparecera para apanhá-lo, foi ficando em Rondonópolis, eles desapareceram, mais uma vez o sacanearam… Ele nem ligava mais, sabia que apareceria algo novo… Como Diretor de Criação era muito requisitado. Ficou na dele, nunca mais tivera ambições terrenas, desde que fôra o ERMITÃO DA PICINGUABA "pirou", e por esse motivo perdeu Thaís, um amor platônico que conhecera em sua montanha e de lá para cá só tinha tido uns casos sexuais e bêbados que não levavam a nada, só o deixavam mais pirado e sem rumo… Aí ficava em casa, não saía. Dona Maria, que cuidava da casa, conversava muito com ele, como um filho…
— Você é um moço muito bom e educado, deveria parar de beber.
Na hora tudo bem, mas à noite lá ia ele para os botecos onde era O POETA… Escrevia, cantava, perturbava, enchia o saco dos políticos fajutos, falava como um DEUS e todos o temiam, pois era forte como um touro e brigava como um
leão. A sua fama era nacional, já havia levado seis tiros e não morrera... Muitas mulheres o admiravam, pois ele era a imagem do romântico de fato, o cara que não sabe o que fazer para agradar uma amiga e não tinha essa de sexo com ele, realmente era um grande amigo… um sonhador que realizava o sonho de muitos… Várias empresas cresceram graças ao seu dinamismo… Acabara de criar o "ZERO A ZERO" para um jornalista que vibrou ao ver o Slogan"ZERO A ZERO - O GOL QUE FALTAVA". Fizera na Expo Agro uns mapas pictóricos da Exposição e aguardava sabe-se lá o quê…

-– Poeta, Poeta, vem aqui Poeta, estava preparando seu jantar? Larga isso aí e vem aqui!
Era o "Seu"Antônio, um antigo homem de fazendas que gostava muito dele e o incitava sempre a escrever, a ler, a falar de Mato Grosso. O interessante é que aquele homem simples, de chapéu de feltro suado e gasto, com calças largas, botas e cinto largo tinha a aparência perfeita para um personagem de seus filmes. Até o modo de falar era gostoso e cheio de vida…
-– O que é Seu António?
-– Vem comigo homem…
Deixou o prato feito em cima da mesa do restaurante e lá se foi como que levado pelo "Seu" Antônio. Ao sair, Dona Elza, a proprietária do Hotel Lusitano, perguntou:
-– Você não vai comer Poeta? …a comida esfria, meu filho, vem comer…
-– Já venho Dona Elza, ponha no forno para mim, por favor…
Aquela senhora alta e bem vestida, conhecia as pessoas como sua própria mão e sabia que ali estava um homem de valor, que já havia se desiludido com as coisas desse Planeta, mas que tinha muita Luz para os outros, era nobre e simples…
-– Esse seu Antônio tinha que vir aqui, agora!?

Atravessaram a rua sem movimento, e do outro lado, em uma mesinha de "boteco" estavam duas moças.
-– É Ele… O Poeta…
As moças olharam para a figura daquele já falado e conhecido "Poeta"… Gordo, barbudo, mãos fortes e sinceras, sorriso matreiro, moreno e cheio de sorriso no olhar…
-– Oi, tudo bom? Eu sou Dóris… Tudo bem chará?
-– Eu sou Gabriela… Quer dizer que você é Poeta? O sotaque português e o sorriso lindo o deixaram um pouco perplexo, pois em MT dificilmente você encontra pessoas bonitas… e a beleza para ele era multi direcional, não se restringia apenas a um palmo de rosto ou corpo.
-– Ela também é jornalista, Poeta.
"Seu" Antônio falava com muita simplicidade, como se ela fosse uma Deusa… e até que não ficava muito longe, diante da emoção daquela voz.
Uma delas, a Dóris, era totalmente maluca, ou fazia tipo, desbocada e atirada. Gabriela era fina, educada, pele muito clara, cabelos louros até aos ombros.
Conversaram sobre a TV, a poesia, um programa que eles criaram em MT e iria para o ar em breve, até que acordou dentro de um ônibus indo para Campo Grande… a loura portuguesa ao lado… Voei, exclamou!!!

Mais uma vez a vida lhe pregava uma peça. Onde estava indo? De nada adiantaria perguntar-se pois lá estava ele no meio da noite, indo para Sul… Lembrou-se da grande Hiléia de Humboldt, que ele conhecera pelos livros e revistas, a depredação incontrolada, Jacques Cousteau, o cientista que o mundo amparava enquanto no Brasil nem os livros se conseguia ganhar para pesquisar, o Santo Daime, a campanha eleitoral de 86, Thomas Green Morton, o gurú das atrizes globais, RA!
Lá estava ele novamente em Campo Grande, MS. Quando por ali esteve pela primeira vez teve que empenhar um Vacheron Constantin de ouro, por um cano que levou…1979… nem gostava de se lembrar, tinha sido traumatizante… Conseguiu retornar para São Paulo, mas o sistema que ele já contestava há muito tempo continuava a incomodá-lo… e o interessante, é que sem que ele se apercebesse voltou à primeira cidade que conhecera quando iniciou suas viagens por esse mundão… Campinas, onde uma senhora que tinha um Restaurante disse ser ele um grande espírito de luz e que a sua vida iria se transformar quando ele menos esperasse… Nessa oportunidade conhecera Beatriz, a amiga que viajava junto com ele cuidando da parte de exportação de um grande grupo. Os dois ficaram uns dias em Campinas até encontrarem com o "Seu" Guido, o dono de um cartório, que era muito seu amigo e lhe disse:
— Você já deixou muita gente bem de vida e está à beira de um stress, por que não vai comigo esse final de semana conhecer Picinguaba?

Era a segunda vez em seis anos que ocorrera esse convite, ele pensou na possibilidade. À noite, quando foi ao Restaurante da Titia, falou com Dona Maria, a senhora espírita, tomou umas três cervejas, de repente levantou-se e disse "EU VOU SER O HOMEM DA MONTANHA".
Todos o olharam com surpresa, o que ele queria dizer com aquilo? A filha mais velha, uma moça morena, desenhou um boneco em uma folha de papel e lhe disse "Você vai ser O ERMITÃO, como esse bonequinho".
A figura representava um boneco com três fios de cabelos compridos, sentado em suas próprias pernas, olhando para o infinito.
Ele olhou para a figura, pediu mais uma cerveja, comemorou sua nova roupagem. Na quinta-feira à noite bebeu muito e pediu à Beatriz que o acordasse na sexta de manhã, pois ia para a sua MONTANHA. Ela sorriu, pois sabia que ele havia bebido muito, mas em seu subconsciente algo a alertou, como se realmente iriam para a tal montanha.

 

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