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A filmagem
não aconteceu pois a mãe não aprovou a "grande
idéia" - o pai não gostaria de ver a
filha no cinema, mesmo que fosse um filme sobre a escola e a vida
de uma rua tradicional de um bairro de São Paulo. Por diversas
vezes voltara ao apartamento para comer coalhada e tirar um sarro,
pois não podia passar disso, ela era virgem e nem pensar
em "atropelar", era muito bom o que faziam
Até
que um dia chegou à porta do prédio e a viu subindo
as escadas de mãos dadas com um "senhor"
era
um rapaz de seus 23 anos.
- Oi, esse é o Plínio.
Acabou-se o que era doce
Ela permanecera em sua mente, subindo
a escada com o Plínio. Um dia encontrara-a na rua Pirapitingui,
ela vinha da escola com os livros às costas
- Oi! Você sumiu! O que aconteceu? Enjoou da coalhada?
Ou está bravo comigo!?
Apanhou sua mão e subiram de mãos dadas
o
calor subindo junto
chegaram à porta do prédio
o nome da avó dele bem na entrada
OLINDA
EDIFÍCIO
DONA OLINDA
o mesmo nome da mãe dela
Coincidência?
- Vamos subir?
- Não! eu preciso estudar matemática, tenho
exame amanhã.
- Está bem
apareça
venha um dia.
Beijou-o no rosto
venha um dia, apareça! Nunca mais
a viu, fora estudar interno durante 5 anos e nunca mais a viu
Mas a mocinha morena da rua São José nunca saíra
de sua cabeça
Um dia vinha com uma turma carregando um balão que apanharam
na invernada, e lá estava ela na varanda. Parou, e com
um gesto nobre lhe ofereceu o balão. Ela sorriu e o chamou
- Vem cá!
Ele foi
- Como foi que o apanharam?
Sentou-se em um dos degraus da casa, colocou o balão no
assoalho da varanda, tirou o chapéu que havia ganho do
tio Jarbas
- Bem, eu estava empinando meu quadrado, que aliás
tem um metro de diâmetro, quando Totó começou
a latir e saltar mais do que quando vê preá. Olhei
para o céu e lá vinha esse bitelão saindo
das nuvens, tem mais de 50 folhas ...é enorme, pensei comigo
mesmo. Amarrei a linha do quadrado em um tijolo, gritei para o
Dago, que estava "roubando laranja", e lá fomos
nós
Corremos uns 200 metros pelo capim gordura da
invernada, até ouvirmos atrás de nós os gritos
da turma da rua Almeida. Eram o Alemão, o João Cuco,
o Mosquito, uma turma imensa... Só eu, o Dago e o Totó,
nosso valente Totó, corremos saltando os brejos e as moitas,
entramos e atravessamos a mata inteirinha, as cobras rastejaram
de lá para cá, subi em uma enorme pedra cheia de
limo e o avistei. Estava indo em direção ao cipreste
da bica
Corri como um gamo assustado, saltei para o galho
do cipreste, atrás de mim os gritos: "ninguém
rasga". O Dago torcera o pé mas continuava a correr
Totó latia e investia contra os inimigos, e o Duque, aquele
vira-lata sarnento, cego de um olho e manco. Eu subia galho por
galho feito um sagüi, sem nem ouvir nada, olhando o "mixirica"
vindo em direção ao cipreste
Ao chegar ao
meio da árvore, ouvi um barulho de papel amassando
ele já havia encostado nos galhos
subi mais três
galhadas e alcancei sua boca, que tinha, graças a Deus,
uma tocha apagada
Foi a neblina
Aos poucos fui recolhendo-o
e quando percebi ele era maior que eu
mas pausadamente fui
enrolando-o tomando muito cuidado para seus coloridos papéis
não se rasgarem. Quando estava todo enrolado coloquei-o
embaixo do braço e comecei a descida
40 metros
estava bem alto e eu nem percebera o quanto subira
é
uma emoção. Lá embaixo a gritaria começara.
Dago sozinho conseguiu com um berrante atrair a atenção
de nossa turma, que agora dava a maior lição na
turma da rua Almeida
Vamos todos nos unir e soltar o bitelão juntos!
eu gritei lá de cima.
Todos olharam-me e acharam uma boa idéia
Quando cheguei
à terra, todos me carregaram nos ombros fazendo a maior
festa
agora estamos indo para a garagem do seu Patrício,
fazer uma tocha nova e uns pequenos remendos
Ela o ouvira o tempo todo silenciosa e curiosa pelos seus feitos.
Como ele era corajoso, pensava.
- Parabéns!
Quando vão soltá-lo?
- Hoje à noite, aqui em frente, em sua homenagem,
está bom assim?
- Em minha homenagem?
- É!!!
Ela sorriu, ele também, e o amor nasceu para os dois
Foram três meses de férias, que valeram uma vida
o primeiro dia no Cine Ipê, assistindo a sessão do
Zorro com o dinheiro que conseguiu fazendo carretos na feira
ela ao seu lado, as mãos juntas, o seu cheiro de cabocla,
fogão de lenha, os intervalos que faziam se separarem para
as pessoas não perceberem, as festas em que se escondiam
e se beijavam escondido, os passeios ao Horto Florestal na Maria
Fumaça com Seu Patrício e a esposa tomando conta
da garotada, que levava lanche para lá fazer um pic-nic
à beira do grande lago
Três meses de puro amor,
amor infantil, juvenil, amor espiritual e sonhador, cheio de ir
e vir aos píncaros do universo com um simples olhar de
Sua Eterna Namorada. Sem a malícia da carne que
apodrece e o bem esquece, AMOR verdadeiro como o próprio
Universo, que em milênios perpetua a Paz da divina existência
sem molestar ninguém, Amor de ir levar à escola
e ao cinema ou Amor de colher uma flor e ofertar com um beijo
Amor como não se vê mais hoje em dia, pois os homens
têm vergonha de mostrar que amam
Amor de dois seres
que se escolheram só para sonhar.
Um dia
o pai burguês, frio e calculista, passou pela feira com
seu Mercuri 51, conversível de merda, e o viu
- Édison!!!
O grito ecoou em seus ouvidos, correu com o carrinho de mão
até não mais poder, fez as entregas à alemã
da rua São Pedro, pediu ao Dago para cobrar e ficar com
o carrinho, correu pela Invernada inteirinha, chegou à
casa da sua avó cega de um olho e humilde como um São
Francisco
ela chorava
A avó que ele tanto amava chorava
Por quê?
- Que foi vó?
- Teu pai passou por aqui e disse para eu arrumar suas malas
que você nunca mais vai passar férias aqui, pois
eu não sei como educá-lo, "onde já se
viu fazer carreto na feira
" foi isso que ele disse,
eu sempre achei que você gostava de fazer carreto, é
bom para sua vida aprender essas coisas práticas e sadias
Nunca mais você virá passar férias comigo
- Nunca mais?!!!
E assim
aconteceu. Nunca mais durante sua infância e juventude,
nunca mais a viu; A vida perdeu o sentido, estudou interno
5 anos, depois fez Academia Militar, quando ia sair oficial se
revoltou contra o sistema, foi morar na praia, tornara-se um guerrilheiro,
um revoltoso que a tudo e a todos combatia. Aparentemente era
feliz, mas no seu interior ficou a imagem da sua primeira namorada
Tudo
perdera a razão de ser e estar.
No início o pai forçara-o a passar férias
no Palace Hotel de Poços de Caldas. Triste como um passarinho
que perdeu os filhotes, ele ficou doente, teve nefrite, ficou
seis meses na cama. A mãe, preocupada com ele e os outros
5 irmãos, nem sabia o que fazer, pois o pai era ditatorial
e ninguém poderia contrariá-lo. Até os doze
anos viveu com a família, depois o internato, a escola
de cadetes com 19, a revolução de 64 que o fez revoltoso
e revoltado, a praia, o cais do porto, as prostitutas, as pessoas
drogadas, os pescadores, um mundo que ninguém viveu com
tanto desprendimento e intensidade
No fundo, no fundo queria
Sua Eterna Namorada. Nunca mais a vira

Já
com 44 anos de idade, estava em Rondonópolis - MT, depois
de ter viajado boa parte do mundo de Deus, casou-se, divorciou-se;
o casamento durara um dia, a mulher era materialista, ele sonhador,
poeta, compositor, trabalhava como Diretor de Criação
Globo local, estava mais uma vez vivendo, como costumava dizer,
vivendo algo insosso, mas que era novidade, e por ser novidade
o atraía, mas não fazia contratos, as pessoas não
lhe pagavam, ele brigava, jogava tudo para o ar, ia para o hotel
Quantos hotéis conhecera em sua vida, daria para montar
uma grande companhia de turismo
Dinheiro não o comprava...
o que gostava mesmo era NAMORAR, com todas as letras e sonhos
Conhecera várias pessoas interessantes em sua vida
44 anos é uma vida
idade do LOBO, e que Lobo
O dono do Hotel era seu amigo, Lima Limão era o seu apelido;
sentavam-se na Esplanada do Hotel e lá ficavam lembrando
de São Paulo, do Liceu, dos padres, falando de cavalos,
fazenda
Nesse dia estava falando do pessoal que fizera a
EXPO AGRO com ele e que iriam passar para apanhá-lo e levá-lo
para Cuiabá, onde morava nos últimos 3 anos. Foi
lá que escreveu Chapada Aqui Pantanal Há lá,
foi lá que constatou a maior Oligarquia política
que já vira, com 4 famílias dominando a população,
sem escrúpulos, inclusive Dante de Oliveira, que fora ministro,
era agora o prefeito de Cuiabá; muitas coisas erradas ocorriam
por lá e ele não gostava disso, por esse motivo
lançou o livro criticando O PODER.
O pessoal não aparecera para apanhá-lo, foi ficando
em Rondonópolis, eles desapareceram, mais uma vez o sacanearam
Ele nem ligava mais, sabia que apareceria algo novo
Como
Diretor de Criação era muito requisitado. Ficou
na dele, nunca mais tivera ambições terrenas, desde
que fôra o ERMITÃO DA PICINGUABA "pirou",
e por esse motivo perdeu Thaís, um amor platônico
que conhecera em sua montanha e de lá para cá só
tinha tido uns casos sexuais e bêbados que não levavam
a nada, só o deixavam mais pirado e sem rumo
Aí
ficava em casa, não saía. Dona Maria, que cuidava
da casa, conversava muito com ele, como um filho
Você é um moço muito bom e educado,
deveria parar de beber.
Na hora tudo bem, mas à noite lá ia ele para os
botecos onde era O POETA
Escrevia, cantava, perturbava,
enchia o saco dos políticos fajutos, falava como um DEUS
e todos o temiam, pois era forte como um touro e brigava como
um leão.
A sua fama era nacional, já havia levado seis tiros e não
morrera... Muitas mulheres o admiravam, pois ele era a imagem
do romântico de fato, o cara que não sabe o que fazer
para agradar uma amiga e não tinha essa de sexo com ele,
realmente era um grande amigo
um sonhador que realizava
o sonho de muitos
Várias empresas cresceram graças
ao seu dinamismo
Acabara de criar o "ZERO A ZERO"
para um jornalista que vibrou ao ver o Slogan"ZERO A ZERO
- O GOL QUE FALTAVA". Fizera na Expo Agro uns mapas pictóricos
da Exposição e aguardava sabe-se lá o quê
-
Poeta, Poeta, vem aqui Poeta, estava preparando seu jantar? Larga
isso aí e vem aqui!
Era o "Seu"Antônio, um antigo homem de fazendas
que gostava muito dele e o incitava sempre a escrever, a ler,
a falar de Mato Grosso. O interessante é que aquele homem
simples, de chapéu de feltro suado e gasto, com calças
largas, botas e cinto largo tinha a aparência perfeita para
um personagem de seus filmes. Até o modo de falar era gostoso
e cheio de vida
- O que é Seu António?
- Vem comigo homem
Deixou o prato feito em cima da mesa do restaurante e lá
se foi como que levado pelo "Seu" Antônio. Ao
sair, Dona Elza, a proprietária do Hotel Lusitano, perguntou:
- Você não vai comer Poeta?
a comida
esfria, meu filho, vem comer
- Já venho Dona Elza, ponha no forno para mim, por
favor
Aquela senhora alta e bem vestida, conhecia as pessoas como sua
própria mão e sabia que ali estava um homem de valor,
que já havia se desiludido com as coisas desse Planeta,
mas que tinha muita Luz para os outros, era nobre e simples
- Esse seu Antônio tinha que vir aqui, agora!?
Atravessaram
a rua sem movimento, e do outro lado, em uma mesinha de "boteco"
estavam duas moças.
- É Ele
O Poeta
As moças olharam para a figura daquele já falado
e conhecido "Poeta"
Gordo, barbudo, mãos
fortes e sinceras, sorriso matreiro, moreno e cheio de sorriso
no olhar
- Oi, tudo bom? Eu sou Dóris
Tudo bem chará?
- Eu sou Gabriela
Quer dizer que você é
Poeta? O sotaque português e o sorriso lindo o deixaram
um pouco perplexo, pois em MT dificilmente você encontra
pessoas bonitas
e a beleza para ele era multi direcional,
não se restringia apenas a um palmo de rosto ou corpo.
- Ela também é jornalista, Poeta.
"Seu" Antônio falava com muita simplicidade, como
se ela fosse uma Deusa
e até que não ficava
muito longe, diante da emoção daquela voz.
Uma delas, a Dóris, era totalmente maluca, ou fazia tipo,
desbocada e atirada. Gabriela era fina, educada, pele muito clara,
cabelos louros até aos ombros.
Conversaram
sobre a TV, a poesia, um programa que eles criaram em MT e iria
para o ar em breve, até que acordou dentro de um ônibus
indo para Campo Grande
a loura portuguesa ao lado
Voei, exclamou!!!
Mais uma
vez a vida lhe pregava uma peça. Onde estava indo? De nada
adiantaria perguntar-se pois lá estava ele no meio da noite,
indo para Sul
Lembrou-se da grande Hiléia de Humboldt,
que ele conhecera pelos livros e revistas, a depredação
incontrolada, Jacques Cousteau, o cientista que o mundo amparava
enquanto no Brasil nem os livros se conseguia ganhar para pesquisar,
o Santo Daime, a campanha eleitoral de 86, Thomas Green Morton,
o gurú das atrizes globais, RA!
Lá estava ele novamente em Campo Grande, MS. Quando por
ali esteve pela primeira vez teve que empenhar um Vacheron Constantin
de ouro, por um cano que levou
1979
nem gostava de
se lembrar, tinha sido traumatizante
Conseguiu retornar
para São Paulo, mas o sistema que ele já contestava
há muito tempo continuava a incomodá-lo
e
o interessante, é que sem que ele se apercebesse voltou
à primeira cidade que conhecera quando iniciou suas viagens
por esse mundão
Campinas, onde uma senhora que tinha
um Restaurante disse ser ele um grande espírito de luz
e que a sua vida iria se transformar quando ele menos esperasse
Nessa oportunidade conhecera Beatriz, a amiga que viajava junto
com ele cuidando da parte de exportação de um grande
grupo. Os dois ficaram uns dias em Campinas até encontrarem
com o "Seu" Guido, o dono de um cartório, que
era muito seu amigo e lhe disse:
Você já deixou muita gente bem de vida e está
à beira de um stress, por que não vai comigo esse
final de semana conhecer Picinguaba?
Era a segunda
vez em seis anos que ocorrera esse convite, ele pensou na possibilidade.
À noite, quando foi ao Restaurante da Titia, falou com
Dona Maria, a senhora espírita, tomou umas três cervejas,
de repente levantou-se e disse "EU VOU SER O HOMEM DA MONTANHA".
Todos o olharam com surpresa, o que ele queria dizer com aquilo?
A filha mais velha, uma moça morena, desenhou um boneco
em uma folha de papel e lhe disse "Você vai ser O ERMITÃO,
como esse bonequinho".
A figura representava um boneco com três fios de cabelos
compridos, sentado em suas próprias pernas, olhando para
o infinito.
Ele olhou para a figura, pediu mais uma cerveja, comemorou sua
nova roupagem. Na quinta-feira à noite bebeu muito e pediu
à Beatriz que o acordasse na sexta de manhã, pois
ia para a sua MONTANHA. Ela sorriu, pois sabia que ele havia bebido
muito, mas em seu subconsciente algo a alertou, como se realmente
iriam para a tal montanha.
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