PARTE 3

A sexta-feira chegou quente, ele acordou assustado, olhou para o relógio, já eram 9 horas, nunca acordara tão tarde. Saltou da cama, xingou Beatriz, que não o acordara, tomou um banho, ligou para o Cartório de Barão de Geraldo e soube pela filha de Seu Guido, Célia, que já haviam partido. Perguntou o nome da Montanha, a região onde ficava e desceu para o café às pressas, já com as malas prontas.
Beatriz não estava entendendo nada, tinham planos de fazer todo o trabalho de exportação, ganhar muito dinheiro, construir uma "ponte" entre Viracopos e São Paulo para o exterior… Quando se apercebeu, estava em plena estrada, entre Ubatuba e Paraty.

Ele dirigia como um zumbi ressaqueado, e com a idéia fixa de chegar a Picinguaba. A Rio-Santos era um tapete de asfalto onde o carro desenvolvia o máximo de sua velocidade. Antes de chegar à cachoeira mais famosa dessa região, ele avistou uma placa: "PICINGUABA".
Exultou de alegria, estavam chegando…Entraram por uma estradinha de terra. Um rio seguia o seu rumo para o Mar à direita e uma Montanha sombreava a estrada àquela hora do dia. Muitas árvores faziam o cenário de Mata Atlântica, estavam entra a Serra do Mar e a Mata Atlântica com suas costeiras, praias desertas, rios de água límpida, cachoeiras, muitos pássaros… Era o mês de Agosto, dali a um mês faria 35 anos... Ao seu lado Beatriz, a amiga, companheira de vários meses de viagens e de loucuras contra o Sistema, contra os que só queriam faturar e não viver, não de terra. Encontrou lá na frente um senhor magro, de óculos, chapéu desgastado pelo tempo, sandálias de palha, levava uma enxada na mão e um saco com algumas compras, e sabe-se lá o que na outra.
– O Senhor conhece o sítio do "Seu" Guido?
O homem parou, tirou o chapéu, enxugou o suor do rosto, respirou um pouco e disse:
– É tudo isso aqui…
– Tudo? e a casa onde ele costuma ficar, onde é?
– Estou indo para lá, se o senhor quisé posso indicá meió.
– Está bem! Suba aí atrás…
Abrindo a porta, o Mineiro, como se apelidava, foi entrando no banco de trás e se acomodando; andaram mais uns 4 kms pela estradinha, que era toda cercada de verde, sem nenhuma casa, só algumas plantações de mandioca ou feijão é que demonstravam haver vida por ali. Iniciaram uma subida íngreme que fez o carro derrapar várias vezes e os presenteou com a vista mais bonita que ele já tivera nos últimos tempos…O Mar e o Infinito.
À direita estava o Oceano Atlântico, com todas as suas ilhas, praias imensas onde ele mansamente depositava o seu retornar… Ilhotas bem próximas permitiam gaivotas e martim-pescadores banharem-se em águas transparentes… Árvores centenárias à esquerda demonstravam que o Homem por ali ainda não havia colocado a sua força de destruição… O céu estava azul, azul, uma paz os invadiu...
Foram despertados pelo Mineiro:
– Lá embaixo fica a vila e a casa do "Seu" Guido, eu vou ficando por aqui que tenho ainda que recolher umas mandiocas para o jantar.
Abriram a porta do carro, o Mineiro desceu, recolocou o chapéu.
Muito obrigado. Quarqué coisa é só chamar "o Mineiro". Inté!!

Os dois se olharam, ela sorriu… – "VOCÊ É UM LOUCO" – só agora ele se apercebera que ela tinha vindo junto… Que loucura, como isso tudo aconteceu? Aliás eram as suas peripécias que assustavam a todos que o conheciam. Talvez por esse motivo as pessoas que estavam habituadas com tudo certinho não o entendiam… Eles o entediavam… Sem graça essa vida de tudo no lugar certinho, na hora certinha, sem imaginação, sem sonhos, sem aventura… Beatriz sorria... "SEU LOUCO"… A paisagem valia toda a loucura do mundo. PAZ! AMOR! VIDA! NATUREZA! Estava tudinho ali…
Começaram a descer a Montanha pela estradinha de terra úmida; o carro escorregava, de nada adiantava frear, o negócio era engatar primeira e descer lentamente, mas mesmo assim derrapava, tomou todo o cuidado, pois se fosse para a direita cairiam de uns 100 metros dentro do mar, se fossem para a esquerda ficariam presos no barranco enorme da Grande Montanha que os abrigava como as paredes do interior de uma Baleia… Novamente se exaltou: "QUE MARAVILHA"… lá embaixo, a idéia de um presépio. Umas canoas e alguns barcos de pesca faziam um cenário que nunca vira, lembrava alguma coisa, mas ele não sabia definir o quê. Foram descendo e se aproximando, até que estavam na praia onde os pescadores colocavam suas redes para secar e as canoas ficavam emborcadas sobre roletes que as deslizavam quando iam ao Mar.
Parou o carro sob uma árvore, desceu, tirou os sapatos, tirou a camisa, arrancou as calças, estava de sunga, saiu correndo e mergulhou naquele mar límpido e convidativo. O mergulho foi razante e deslizante entre as ondas, foi indo para o fundo, que nunca chegava, pois era uma praia sem "buracos". Parecia uma piscina azul, azul. Os cabelos encaracolados, o tórax largo, as pernas fortes, os braços que já haviam dado duro como nadador de grandes clubes como o Pinheiros e o Banespa, estavam sendo massageados pelas ondas, que o absorviam como a um peixe… que delícia aquela sensação. Parou de nadar, ficou de pé, com água até os ombros, olhou para a praia e novamente se emocionou… A grande montanha era toda verde, tinha a forma de um grande navio, descia suavemente, com uma casinha aqui, outra acolá, uma igrejinha ao lado esquerdo, a costeira cheia de grandes pedras com formas de animais, tartarugas, elefantes, dinossauros, borboletas, todas as formas imaginárias. Achou que era efeito da ressaca. Mas não era, as formas ali estavam constantemente, a vila de pescadores, as redes, os barcos de pesca, traineiras, saveiros enormes que balançavam ao sabor das ondas, canoas onde as crianças remavam indo até as redes fiscalizar se havia peixes... As ondas sem querer foram levando-o até à praia, onde Beatriz já vestida com uma blusa e um shorts molhava os pés…
– Que tal, gostou?
– É lindo, parece que estou em outro mundo... Que lugar bonito, como se chama?
– PICINGUABA… minha MONTANHA… e sorriu, dirigindo-se a uma das casinhas onde incrustada na madeira uma placa de lata dizia: Antártica. Um senhor de óculos verdes escuros, pele muito queimada e enrugada, cabelos brancos e dentes amarelados já estava prontinho à sua disposição, e como se lesse seus pensamentos disse:
– Uma cerveja?…Temos também peixe frito… Foi entrando para o outro cômodo onde um Freezer de isopor, um papagaio velho, uma rede gasta onde uma criança dormia, um fogão de lenha, muita mandioca em sacos, alguns brinquedos e bolachas denotavam ser ali uma venda. O homem voltou com a cerveja, apanhou dois copos embaixo do balcão improvisado com uma porta velha, que parecia ter cem anos, passou água pelos copos, abriu a cerveja:
– O senhor serve, pois cada um tem um gosto! Quer peixe frito? Apanhou um terceiro copo e após ele e Bia terem se servido, serviu-se e disse:
– Sejam bem-vindos, essa é por minha conta! Deu uma grande talagada que deixou o bigode todo branco e o rosto sorridente:
Fazia dias que não aparecia ninguém da cidade por aqui... Vocês vão ficar onde?
– O senhor conhece o "Seu" Guido?
Rufino, que era como se chamava aquele pescador comerciante, olhou para dentro da casa, olhou para os lados como se fiscalizando o ambiente, olhou bem nos olhos dos dois e disse:
– Quem não conhece? …Ele manda em todos por aqui… tudo aqui é dele, tudo! Começou comprando as terras, depois comprou a casa do bidicho que faz as portas da igreja para o padre, depois foi a vez do velho Júlio vender a dele, depois foi a Beata que se meteu com ele e quase ficou sem casa e sem nada, aí ele construiu aquela casa grande lá atrás e ninguém mais teve sossego… Ele compra e descompra, isso aqui era tão calmo… Até o Pastor entrou nessa história de terras e todo mundo doou as terras para a igreja, fora o problema com a Caixa Econômica lá na Praia da Fazenda…
– Pelo vistos os babas já começaram a destruir tudo por aqui também…
– O senhor nem vai acreditar quando souber a verdade. Só pro senhor ter uma idéia tem gente aqui que ganha dinheiro misturando pedras para construir mansão para quem não paga nem o peixe que ganha dos pescadores, tem outros como o Fernando Henrique que continua morando em uma casinha de pescador sem incomodar ninguém, e tem o Suplicy que está construindo 3 mansões.

Continuaram tomando cerveja, ele sentou-se em uma enorme pedra e admirava o Mar, com a sensação de "eu já tinha morado por ali"; Bia estava catando conchinhas descalça na areia que o mar beijava, um cachorro de rabo bandeira brincava com um siri que teimava em entrar na areia que ele cavava. Os palmeiros no alto da montanha anunciavam bons ventos, as embarcações ancoradas davam um toque de romantismo, os homens chegados do mar amando suas mulheres que os esperavam durante meses… O silêncio só era quebrado pelo latido dos cães que vez ou outra davam o ar de sua graça, das batidas do mar na praia…
De repente uma buzina o acordou de seus sonhos. Era a camioneta de "Seu" Guido. Ele vinha com sua esposa, Dona Nura. Parou a camioneta entre as árvores, desceu cumprimentando os homens e crianças que corriam em sua direção. Era muito alto e aquelas pessoas pareciam pigmeus perto dele, que tinha cabelos brancos, olhos claros e olhar de inteligência. Era um bom homem. Claro que sendo dono de cartório aproveitava todas as oportunidades que lhe caiam nas mãos, e Picinguaba, estava na cara, era uma delas. Ficou sentado pensando nisso. Seu Guido conversou com Jonas, o pescador que comandava a vila, com Rufino, o velho que servira as cervejas, aproximou-se de Bia, cumprimentou-a sorrindo. Bia apontou onde ele estava sentado e Seu Guido dirigiu-se para lá.
– E então?! Que achou desse paraíso?
– Como o senhor mesmo diz… UM PARAÌSO…
– Vamos chegar lá em casa, tomar um banho, e preparar uma janta, ou você prefere ficar por aqui?…
Sem nada responder ele ficou lembrando como conhecera o Seu Guido… Fora em 1972, quando fôra lhe oferecer uma máquina copiadora para o cartório. Conhecera sua bela filha Maria Célia… Durante muito tempo ia e vinha a Campinhas, mas nunca imaginou que um dia iriam fazer uma viagem como aquela, para um lugar paradisíaco, cheio de sonhos e natureza. Seu Guido era muito formal, colecionava calhambeques, tocava o cartório e o Posto de Gasolina, tinha muitos terrenos próximo à UNICAMP e nunca ele poderia imaginar que o convidaria para passar uma temporada de praia com sua esposa… que aliás era super rigorosa e energética… Estava se lembrando de tudo isso quando ouviu Bia a lhe falar:
– Nós não vamos? …Hei! Onde você está?…
Bia estava super preocupada, pois nunca o vira tão desligado; apesar dele beber muito, cantar, viver como um boêmio que não liga para nada, ele tinha realizado muitos sonhos, como ser Gerente de uma Multinacional, ser o melhor dos homens que ela já conhecera, como amigo e companheiro de viagens, chegasse onde chegasse dominava o ambiente e ela fazia o seu trabalho sem pestanejar, pois ele confiava plenamente em suas decisões. E ali, agora, parecia que ele nem a ouvia…
– O que você disse?
– Nós não vamos para a casa da Fazenda tomar um banho? Estou mesmo precisando de um, pois a viagem me matou, você nem conversou comigo, dirigiu como um louco, meus nervos ficaram à flor da pele, ainda por cima essa sua mania de beber em tudo quanto é posto para abastecer, como se o mundo fosse acabar, deixou-o como um louco… O que aconteceu?
– Nada, vamos que eu também quero tomar um banho e conversar seriamente com Seu Guido.

O que lhe havia acontecido nem ele sabia, mas àquela hora, no mesmo restaurante onde tudo começara, uma senhora de olhos claros e sorriso espiritual elevado sorria interiormente, pois sabia que mais um espírito estava encontrando seu caminho aqui na Terra. No bolso dele, no momento em que conversava com o Seu Guido, após ter tomado banho e arrumado suas coisas em um amplo salão que Dona Nura reservara para ele, estava o desenho do boneco sentado sobre as próprias pernas, olhando para o infinito… "O ERMITÂO"…
Lembrou-se que aquela menina morena havia dito que queria construir um barco e se admirou quando ele lhe dissera que no outro dia pela manhã iriam visitar um amigo que era dono da Levefort, e ninguém melhor do que ele para dar uma "dica" sobre barcos…
No outro dia, foram de Jeep até a Levefort e lá encontraram o bom Jimmy… um moço louro, olhos que brilhavam, barba meio rala, sorriso de quem está bem consigo e com Deus…
– Oi Jimmy, essa é minha amiga, filha da Dona Maria, do Restaurante da Titia e gostaria de construir um barco. Lembrei-me de você, aliás acho que se você não conseguir resolver o problema dela, quem resolverá?
Jimmy sorriu pois tudo o que fazia era com muita simplicidade e sabia lá se o barco que a moça queria não seria um barco complicado que ele não pudesse contribuir?
– OK! Vamos até o galpão lá do fundo onde tenho um protótipo de "Pantaneira" que estou testando, e enquanto testo conversamos sobre a bela embarcação que a nossa amiga está interessada em desenvolver…Você já sabe que material vai usar?
– Madeira! Quero um barco de madeira, tipo um saveiro que vi na Bahia… é o meu sonho e sei que vou realizá-lo.
– Por que você não compra um Saveiro mesmo? É muito mais fácil e prático.
– Primeiro porque não tenho o dinheiro necessário para adquirir o Saveiro e eu quero um barco com a "minha" energia…
Ela falava com uma convicção que realmente nos convenceu que ela iria trabalhar dia e noite até ter esse barco.
Visitaram toda a fábrica, Jimmy quase derrubou uma pilastra testando o barco Pantaneiro, pois ele voa, como todos sabem, e para isso precisa de uma velocidade bastante elevada para ter direção, pois tem um leme que o dirige, mas um leme aéreo e não submerso, e a baixas velocidades tende a ir para os lados, e foi justamente isto que fez com que o barco batesse nas pilastras de sustentação daquele grande galpão. Na primeira vez bateu de raspão, na segunda bateu mesmo… Jimmy sorria ao sair do barco, sempre ele sorria... Já havia sido operado do coração, fez ponte de safena e não tinha jeito, era um moço com muita vitalidade… Explicou para ela que poderia inclusive fazer um barco de cimento que flutuaria e seria mais barato que o de madeira, ela anotava tudo com muito cuidado…Voltaram para o sítio em Paulínia satisfeitos com a visita à fábrica de barcos…

Enquanto Seu Guido falava sobre a fazenda, que tinha 150 alqueires, alguns caseiros, muito que se fazer e pouca gente realmente interessada em ajudar, ele olhava o papel com o "ERMITÃO" e se perguntava: quando o barco estaria pronto?… Voltou de sua viagem mental e prestou atenção em Seu Guido que agora usava um chapéu de palha, calça Lee, bota e estava às voltas com um alicate e uma argola que servia para vedar canos ou junções de canos…
– Vamos até lá em cima comigo, tenho que juntar um cano que soltou, o povo aqui só sabe usar, na hora que quebra a gente tem que arrumar, eles não querem aprender nada, só pescam, plantam e colhem mandioca, fazem farinha, comem com banana… Peixe com banana chamam de "AZUL MARINHO"…
Subiram a montanha entre os casebres que lá existiam e que formavam uma vila que lá da praia não se via, pois as árvores altas escondiam tudo… Era um lugar interessantíssimo aquele…À sua passagem as pessoas saiam à janela, cumprimentando o Seu Guido, jogando milho para as galinhas que ali ciscavam e davam um sorriso meio frio para o "amigo do Seu Guido"… Chegaram próximo a uma imensa caixa de água feita de concreto…
-– Eu que fiz - disse o Seu Guido - Me faz um favor, passa aquele cano que está caído no meio do mato pela parte esquerda da caixa, eu vou subindo mais um pouco pois a ponta que soltou está lá para cima e aí você traz essa ponta para cima, entendeu?…
– Sim senhor.
Nesse dia começou o seu trabalho na Picinguaba, seria o sócio de Seu Guido… Iria montar um camping, um barzinho, construiriam uns chalés e tudo seria maravilhoso… Estavam jantando, conversando sobre esses assuntos, já era domingo, quando Bia disse:
– Você não vai voltar para Campinas?
– Nem para Campinas e nem para São Paulo… Eu vou ser o "ERMITÃO DA PINCINGUABA"…
Todos riram, menos Dona Nura, que dificilmente ria e tinha em mente que aquilo tudo não passava de um outro "aventureiro" que iria usufruir das praias, comer muito e não fazer nada…

 

Voltar para O Planeta Exterminador
www.ermitaodapicinguaba.com
© 2004