PARTE 4

O ERMITAO realmente aconteceu. Construiu um barzinho todo de madeira, bem fora da vila, lá na curva do rio; fizera com o Bidicho um "trapiche" de aroeira, com 30 estacas que iam até o meio do rio, permitindo que as pessoas tomassem banho de sol na Paz daquele rio muito piscoso. Reunia os caseiros, Guimarães, Zé Pedro, Ary, Dito Baita, Dedé, Bidicho, os pescadores, os da vila, e aos poucos o "Rancho do Ermitão" foi se transformando no ponto de encontro da rapaziada que na vila não podia beber nem fazer o que queriam. Eles viviam sob o jugo do Pastor e das esposas, todo mundo crente… O pastor um dia foi ao Rancho do Ermitão pedir que ele tomasse cuidado com suas ovelhas e saiu de lá com um quente e dois fervendo…
– O senhor já tomou as terras deles, e agora quer me encher o saco? Eu não acredito nas suas palavras, Deus está dentro de todos nós e não na sacola de dinheiro ou na Bíblia que vocês distribuem de graça para fazer a cabeça dessa pobre gente que só trabalha de sol a sol e não tem o direito de viver em paz…Vai embora!
O Pastor saiu pela estradinha, chateado e sem moral… A vila inteira soube daquela discussão.
Já faziam seis meses que "O ERMITÃO" ali morava, e muita coisa tinha mudado, viviam fazendo roda de viola com os turistas, bebiam muito e a coisa que para eles era pecado cresceu em demasia…
Um dia chegou ao rancho um casal que observou O ERMITÃO por um mês, nunca pagaram nada, nem ele tinha o hábito de cobrar ninguém… O casal era chileno e se assustaram quando lá no meio do mato encontraram cerveja gelada, sorvetes, comida farta e um homem barbudo, magro, falando em castelhano… e O ERMITÃO realmente era uma figura… Tinha longos cabelos, olhos brilhantes, muito magro, uma força que ninguém mais pôs à prova, pois um dia ele sozinho acabou com uma briga de pescadores que já durava uns 2 anos e fez todos ficarem amigos… Essa característica nele era latente, detestava gente de cara amarrada e sem graça… a vida lhe havia ensinado desfazer-se dos incompetentes e ranzinzas.
Escolheu viver sozinho, sem mulher, sem ninguém para mudar seu modo de ser e só as árvores, os pássaros e toda aquela montanha podiam satisfazer suas exigências de vida… Era muito respeitado, apesar de ser muito brincalhão… cantava, fazia músicas com o Grilo, um rapaz de Lorena que lá chegou com uma turminha - Nelson, Inês, Paulinho e mais um casal… Era muita música e muito amor quando essa turminha pintava por lá. Amor pela natureza, pela música, pelo AMOR… Os pescadores adoravam pois se reunir ali, onde até uns baseados pintavam para dar mais colorido à festa. O ERMITÃO adorava cerveja e cachaça da pura e nunca ali se fez nada de errado além de se cultivar a Natureza e o Amor…

Após um ano e pouco morando por ali, foi convidado a cantar em Paraty e resolveu que iria ao Festival de Cinema que se realizaria ali. Um ano e pouco sem ir à cidade, como seria? Havia muito que não mais usava roupas, andava só com um shorts e às vezes com o resto de rede cearense de que fez um "poncho"… Sua imagem era bem a de um Monge moderno, que falava vários idiomas, amava a natureza e esperava o dia em que ali chegaria a sua "MUSA" a companheira que poderia com ele dividir todos os segredos que só ele sabia, desde o primeiro átomo vivo que fez o Universo até as cavernas submersas que ele conhecia nas costeiras… Um verdadeiro Ermitão não pensa em ter uma mulher, mas ele queria ter uma NAMORADA e no seu rancho, onde existiam algumas peças de madeira entalhadas, havia também muita coisa escrita em folhas de listagem de computador e uma delas dizia assim:

Na morada interior de uma mulher um dia estivemos,
namorando retornaremos
ou então, sem querer, tudo destruiremos.

Em uma época em que o liberalismo havia tomado conta da juventude, um pensamento desses era careta e sem nexo, mas ele não se permitia "fazer sexo", ou fazia AMOR ou NADA FEITO. Até a Dona Beata, um dia, estranhando esse comportamento, disse a ele que seria melhor ele conseguir uma moça na vila e lá construir sua vida…
O ERMITÃO já pertencia à Picinguaba, todos gostavam dele; mesmo os que o achavam meio louco sentiam sua energia, havia "curado" algumas pessoas com sua fé, chegaram até a acender velas em seu rancho pois foi tido como um enviado…
O casal de chilenos disse ser ele "paranormal" e que quando quisesse os procurasse no RJ, onde o processo Fisher e Hoffman o ensinaria a conviver com suas potencialidades bem melhor do que estava vivendo até agora… Seu defeito era não ver defeito em ninguém e os outros achavam que ele não tinha nada, por causa disso… Ora, só o ERMITÃO poderia realmente entender o Ermitão, aliás, só a gente entende a gente… Quando nos isolamos as potencialidades inerentes a cada um vão aflorando sem que se aperceba e tudo aquilo que nos foi imposto vai se diluindo como água que flúi, aliás é bem por aí…Transpiramos e colocamos para fora tudo aquilo que incomoda… principalmente as coisas da Mente… que Mentem…

Ninguém poderia acreditar que por trás daquela aparência de isolamento, introspecção, Amor à Natureza, Amor mesmo e não essa utopia de preservar a árvore e esquecer a sua própria natureza humana – HUMANA IDADE… – quem poderia acreditar que ali estava um homem com 35 anos de idade que já tinha tido Mercedes, dirigido uma Multinacional, viajado boa parte desse mundo Terra, falava vários idiomas e sempre em sua vida fora desprendido de tudo de material que existia? O Ermitão já nascera ERMITÃO, já havia vivido milênios no espaço, estudando a UNIVERSAL IDADE e de repente desrespeitou uma Lei Universal e veio encarnar novamente na Terra.
Tudo isso ele quase tinha conhecimento quando vivera na cidade, mas a grande verdade surgira ali em Picinguaba. Ali ele voltara à origem do primeiro átomo vivo e descobriu tudo novamente… NOVA MENTE… MENTE ÚNICA… O DEUS TÃO FALADO e não conhecido que existe dentro de cada um de nós graças à atomicidade de todos os seres, pois em átomos nada é NADA… NADA!

A ida a Paraty ocorreu através de uma carona em um Jeep de um pessoal que fora a Picinguaba, acamparam no Rancho do Ermitão e o levaram com seu violão a Paraty… Lá chegando ele visitou Beth, uma loura que tinha um restaurante, encontrou-se com uns amigos como o Leon, Gabriel, Lúcia de Barra do Pirai, Mazinho, Abel… e muitos outros que não o viam há muito tempo e que o conheceram quando ainda vivia na civilização… Leon o recebeu com todas as honras, naquela noite ficaram bebendo e cantando à beira do rio na Leon's Burg, uma palhoça super incrementada que ficava 24 horas no ar… Leon era uma figura muito feia fisicamente, mas lindo como gente… Paraty o tinha como um Patrimônio. Ele era enfermeiro e tocava o seu comércio à beira do rio como um hobby. Era muito interessante tudo o que ocorria por ali. O FESTIVAL DE CINEMA foi um sucesso e a abertura contou com um monólogo do ERMITÃO que falava de uma cobra que comera seus sabiás. Era interessante como ele transmitia suas mensagens às pessoas… A Mãe Natureza prefere que a cobra coma os filhotes do que os homens os tranquem só para ouvi-los cantar… Após o monólogo cantou uma música em homenagem ao Sol e agradeceu a Santa Rita ter cedido o Altar da Igreja para ele poder mostrar como era bom viver em sua Montanha.
Após os filmes serem apresentados as pessoas rodearam o ERMITÃO e queriam saber onde era sua montanha… Ele dizia: "fica a 6 montanhas daqui". Ninguém entendia nada…
Ficou um mês em Paraty, conheceu Alfred, o Francês. Ganhou uma roupa de cetim preto com um dragão nas costas de um homem que depois soube ser ele o Fernando Gabeira, permaneceu como um andarilho naquela cidade mágica. Chegara com uma roupa branca e um violão… roubaram-lhe a roupa, o violão ele deu para Beth. A desilusão que as pessoas lhe passaram fizeram-no "pirar"… Entrou em Alfa, Beta, Gama, Ômega, e de lá não mais saiu… Dormia na porta da Igreja de Santa Rita, às vezes encontrava com Leon que lhe oferecia um prato de comida, tomava muito banho de mar e nem queria mais beber…
Um dia resolveu ir a nado até uma Ilha que fica em frente a Paraty, um pescador o viu nadando nu, convidou-o a subir no barco pois ele já estava para lá da entrada da baía, mas o ERMITÃO nem o ouviu… chegou à ilha, ficou por lá curtindo o sol, os peixes e as árvores virgens… bem virgens… chegava a fazer amor com as árvores, de tanto carinho que tinha por elas, que lembravam mulheres de ponta cabeça com as pernas abertas… Uma senhora viagem ao mundo vegetal…
Ouviu uma lancha chegando, era a polícia que o encontrou próximo a uma cobra que parecia conversar com ele... A serpente embrenhou-se no mato, um soldado jogou-lhe uma bermuda molhada que ele vestiu contrariado, amarraram suas mãos às costas e o levaram de volta a Paraty. Lá o delegado perguntou como a todo drogado, como todos diziam… soltou-o e mandou-o de volta a PICINGUABA… Levaram-no em um Camburão e o soltaram na porrada, lá perto de Camburi.
– SE VOLTAR VOCÊ VAI MORRER!…
Nem ouviu o que lhe disseram, embrenhou-se na mata, desceu as encostas íngremes seguindo o curso de um riacho, rolou por umas pedras, foi caindo por uma distância de mais ou menos uns 80 metros e foi parar em um rio límpido iluminado pelo Luar… Sacudiu a cabeça, molhou-se por inteiro, nadou um pouco, foi indo em direção ao Mar… Encontrou um pessoal na praia que nada ouvia, até que começou a cantar "Marina" e as pessoas o acompanharam… Ficaram a noite toda cantando, quando amanheceu o dia, tomou um banho de mar, dormiu um pouco embaixo de uma grande árvore de canela, acordou com uma moça morena o convidando a ir almoçar… Olhou-a sem entender muito bem o que estava acontecendo... ela pegou em sua mão e ele a retirou…A moça não entendia como um Homem não aceitasse sua mão… quem seria ele?
– Como você se chama?
– Ermitão - foi a resposta
– ERMITÃO? você é um ERMITÃO?… meio assustada e incrédula ela sentou-se na areia e viu que ele brincava com um siri…
– Ela é minha namorada!
O que a moça ouviu parecia um sonho... "sua o quê?" NAMORADA… e saiu andando pela praia sem se preocupar com aquela moça morena que tinha tudo de quem vive na cidade e não entende O MATO…A MATA…MAR, HÁ MAR…AMAR… Foi tomar um banho de cachoeira com a sua "namorada"… Ela o acariciava com suas presas e os seus olhos se encontravam como que fazendo Amor… ele já se masturbara várias vezes naquela noite, "FAZENDO AMOR"… Estava ali numa ótima quando de repente percebeu que a pedra onde estava sentado era UM CAVALO… PRETO… PETRIFICADO… Veio uma mensagem: ELE FOI SEU CAVALO!
Na noite anterior havia ficado cantando mas estava viajando mentalmente e viu no céu uma imagem de um senhor grisalho e bigodudo que dissera ter sido seu primeiro pai carnal no PLANO TERRA… e que ali era o lugar onde eles haviam vivido… Ficou horas observando aquela imagem e a de uma Sacerdotisa oriental,"sua Mãe" Astral… Nunca mais eles o abandonariam, pois ele não conseguia passar suas mensagens para os da Terra e estava sofrendo muito…"A NAMORADA" havia sido enviada para lhe fazer companhia… Descobriu cavernas submersas, ouro em pó, muitas coisas, e tinha inclusive a sensação de estar sendo filmado, como se ele fosse o personagem de um filme…

Um dia os pescadores o cercaram. Genésio, um negro alto e forte lhe disse:
– É melhor o senhor comer alguma coisa… está muito fraco e ninguém aqui está dormindo preocupado com o senhor…
Olhou para todos e não entendeu nada. Preocupados com ele? Por quê? O que os incomodava? O que ele descobriu ou o quê? Sabia que eles eram testa de ferro de grandes latifundiários que estavam tomando conta de tudo por ali… A sua "NAMORADA" estava dentro da bermuda e lhe deu um cutucão, como se o estivesse avisando de algo… Os pescadores se aproximaram e tentaram agarrá-lo. Mal sabiam que ele havia sido treinado para morrer quando fez escola de cadetes e aqueles dias, meses e todo o tempo na praia deixara-o muito mais forte… Derrubava um a um sem o menor esforço e o interessante é que ele detestava brigar, até porque sabia que era forte demais… Quando viram que não tinha jeito, Genésio disse para irem embora… foram e o deixaram com o Velho Genésio, e ele então o convidou para ir até seu rancho.
Quando lá chegaram a irmã de Genésio mexia num caldeirão e Genésio foi bater farinha.
– Você precisa comer, nós gostamos de você, não adianta largar a Picinguaba e vir para cá, você precisa morar lá, lá é o seu lugar…
Teve ímpetos de xingar Genésio... o que ele tinha a ver com sua vida? O que ele fizera que incomodara tanto? Será que o fato de não ter ido dormir com a filha de um dos pescadores havia magoado a comunidade? Será que o fato de não dormir à noite e andar pelas matas assustava os peixes que estavam no Mar? Não o xingou pois o respeitava, era um baita de um negrão... não por isso, mas porque era sábio…
Levantou-se para ir embora sem comer, sem nada, quando "A SUA NAMORADA" caiu de dentro da bermuda… estava morta! Ficou paralisado olhando para ela…
Genésio não entendeu a cena que viu… o Ermitão se abaixara, apanhara aquele siri que estava estendido no chão de terra de seu barraco, o beijara como se fosse gente, começou a chorar até cair sentado no chão… chegava a sufocar de tanto chorar… De repente levantou-se…"SEUS PUTOS, VOCÊS A MATARAM"… Saiu para a praia solitário e triste, chorava como uma criança que perdeu um brinquedo ou seu animalzinho de estimação, só que o Ermitão havia perdido algo muito superior ao Plano Terra… Sua primeira Namorada Astral… Dirigiu-se até à beira do mar e quando a Lua surgiu no céu pareceu lhe dizer: "coloque-a dentro da espuma do Mar que eu a levarei para sua origem". E assim O Ermitão fez… beijou-a e a colocou nas espumas do Mar… parecia que ela havia renascido pois os movimentos do mar movimentavam suas presas… foi sumindo, sumindo… sumindo…

No outro dia de manhã despertou em uma garagem de barcos que havia ali na praia, mergulhou no mar e decidiu que iria embora para Picinguaba a nado… Quando estava em alto mar apareceu um barco dos bombeiros pedindo para ele ir para a praia. Com certa relutância ele nadou até à praia… quando lá chegou Zé Espigão o olhou com se estivesse vendo O CAPETA…
– Oi Zé Espigão, tem café?
Imediatamente Zé Espigão foi para dentro do seu rancho e fez o café. Um dos bombeiros estava com uma camisa de força que jogou para o ar…
– Esse cara não está louco coisa nenhuma…
O Ermitão sorria… Falsos! Todos eram falsos. Agora acharam de dizer que ele estava louco… Tomou o café, agradeceu a Zé Espigão, foi subindo a Montanha até o asfalto, sendo seguido pelos Bombeiros. Lá em cima uma kombi os aguardava, um sargento e um cabo…
– "QSL Sargento? Por aqui QAP QRV…"
O sargento não sabia o que dizer… um homem com aparência de ERMITÃO, semi nu, 1,80m de altura, pesando 60Kg, cabelos e barba que iam até o tórax, falando em código de Rádio, como podia ser isso?
– Não se assuste sargento, eu sou da turma de 64 que se revoltou, juntamente com o La Marca, meu comandante era o Cabeleira que também se revoltou, lembra? Eu hoje seria Coronel…
– Sim senhor, eu lembro, mas o que foi que aconteceu?
– Eu estava nadando, só isso…
– Mas essa barba, esse cabelo, os pescadores disseram que o senhor estava louco…
E enquanto a kombi seguia até Picinguaba eles iam falando sobre as aventuras do Ermitão… Ao chegar ao Rancho do Ermitão desceram e lá estava o filho do Pastor.
– Quer dizer que além das terras do povo daqui vocês também querem meu rancho? Falsos!
Entrou no Rancho, apanhou uns doces e sorvetes, ofereceu aos soldados que olharam para o sargento:
– De quem é tudo isso?
– É dele - disse o filho do Pastor.
Ninguém entendeu mais nada… tomaram sorvete, comeram doces…
– Temos que ir embora, o delegado quer saber o que aconteceu e o senhor terá que ir depor conosco, pode ser?
– Pois não, Sargento… Apanhou o poncho, o chapéu, vestiu uma calça e uma sandália de sisal e lá se foram… lá atrás o filho do Pastor coçava a cabeça e disse:
– Enlouqueceu!…
Os pescadores estavam muito tristes com tudo aquilo, pois queria lhes oferecer bebidas de graça!

No caminho para Ubatuba o sargento e os outros integrantes daquela guarnição de salvamento se impressionaram com os relatos do ERMITÃO sobre a chacina de 64, sua revolta e de outros companheiros que tinham uma imagem de Brasil para todos e não só para os Militares, além disso se impressionaram com a sua coragem nadando em alto mar. Foi quando ele contara que estivera como voluntário no incêndio do Edifício Joelma juntamente com o comandante Cabeleira, o Leme e toda a antiga turma. De helicópteros, navios ou a pé eles nada temiam… Tinha sido treinado para vencer guerrilheiros e no fim tornou-se um revoltoso…
O delegado de Ubatuba quase caiu para trás quando entrou o ERMITÂO em sua sala… Que figura!…
– Você conhece alguém aqui em Ubatuba?…
– Conheço o Dr. Gentil, do horto…
Ligaram e logo depois apareceu o Gentil, seu amigo de muitos anos, que o conhecera também quando estava por cima da carne seca... e agora aquele "mendigo"... Gentil foi gentil e o livrou da cana… Ia ser preso por quê?… o que havia feito de errado?… Gentil lhe emprestou uns trocados e despediu-se.
Andou perambulando por Ubatuba dois dias. Ia aqui, ia ali, entrou um dia em uma exposição de quadros, discutiu o impressionismo com o proprietário dessa galeria e comentou que Ubatuba deveria expor primitivismo, que era o trabalho regional, e não impressionistas que para lá foram fugindo das cidades. Tinha razão… até ali o mundo estava de cabeça para baixo, pois os trabalhos artesanais, mesmo dos que se diziam "hyppies" nada tinham a ver de ar tesão… AR…TESÃO… O dono da galeria gostou muito dele…
Um dia dormiu em um jardim, acordou, começou varrendo para agradecer a dormida… apareceu uma viatura e passou o fim de semana preso, depois soube que aquela era a casa do Padre. O mesmo Padre que construíra o Estaleiro, comprara várias terras, enfim… um charlatão da Fé! Por que o mundo caminhava desse jeito? Parecia que ele teria condições de consertá-lo
Foi enviado para a Santa Casa onde tentaram lhe dar um sonífero… Mentalizou para o efeito recair sobre o soldado que tomava conta dele… o soldado dormiu, ele saiu da Santa Casa com pijama e tudo pela janela, andou pelas ruas, viu uma antena de rádio amador… Estava acontecendo um churrasco, gritou:
– Hei Maraca, tudo bem?
O rádio amador se aproximou dele, trocaram uns códigos… entrou, tomou chopps, estava todo feliz, passou a viatura da polícia…
– Vamos levá-lo para São Paulo, já localizamos a família…

Chegou em São Paulo de ambulância. A família não acreditava no que via… só de pijama, a calça, pois a blusa ele soltara pela janela da ambulância onde dois soldados choravam e o motorista se emocionava com suas histórias sobre O PLANETA EXTERMINADOR… Os guardas se despediram dele até com carinho e não teve jeito de fazerem-no barbear-se… só tomou um banho. Interferia mentalmente nas frequências da televisão. Seu tio, que era também ligado à paranormalidade, o aconselhou a desligar "o reator" e levaram-no ao Hospital São Paulo onde uma psiquiatra ria a mais não poder com o ERMITÃO… A família não sabia o que fazer, mas fizera… internaram-no na melhor clínica para LOUCOS!
Tornou-se amante da psicóloga só para conseguir sair e conseguiu mentalizar para ela tornar-se a Dona da clínica, o que ocorreu antes dele sair de lá.
Conheceu um jornalista que se tornou seu melhor amigo, viviam saindo da Clínica, curtindo a vida como se morassem em um Hotel de Luxo… A família fora criticada pela psicóloga:
– Ele está muito bem e não louco, loucos estão os que fazem esse mundo…
Ele a admirava, ela era corajosa e meiga, mas no coração do Ermitão vivia a imagem de Thaiz, a menina que ele conhecera na praia da Fazenda…
Um dia, em um cocktail, reencontrara-a… Agora ela trabalhava como artista plástica… Ele continuou vendo-a mas algo os afastou… algo que ele só descobriu depois de muitos anos… A BEBIDA O DEIXAVA LOUCO! Era uma grande verdade, e fôra essa verdade que o fizera chegar ao fundo do poço em Cuiabá, onde conheceu alguém que lhe indicou o AA, e graças a Deus ele parara de beber.

Dez anos haviam passado até ele estar naquele apartamento de Campo Grande onde a loura que conhecera em Rondonópolis o abrigou. Pela primeira vez em 10 anos não ia precisar pagar Hotel… nem acreditava que podia ficar ali sem se preocupar com aluguel, roupa lavada, gasolina, comida, enfim, com nada! nem em Picinguaba isso ocorrera, pois tinha compromissos com os fornecedores, com o Seu Guido, enfim, NUNCA em sua vida pudera só viver, sempre tivera que batalhar o seu dia a dia, senão…
Quem era aquela loura que o chamava de POETA como se fosse o seu nome próprio e realmente o queria POETA? Os momentos de Amor que viveu com ela não viveu com ninguém… NINGUÉM O ENTENDIA… Ele não sabia fazer sexo, só sabia fazer AMOR… detestava ter que explicar que não sentia tesão, e daí? Sentia carinho, ternura, amor platônico, mas tesão era dificílimo, chegaram a pensar que ele era gay, pode? Aquela loura o compreendera em todos os sentidos, dava até para desconfiar… NUNCA alguém o entendera como ela o entendera, e o interesante é que eles só tinham 8 dias de diferença terrena… Ela nascera dia 20 de Setembro de 1945 na Ilha da Madeira e ele a 12 de Setembro de 1945 em São Paulo… Rodaram o mundo e vieram se encontrar aqui… NA TERRA!
Ela também era poetisa e aí a coisa ficou interessante mesmo… UM ERMITÃO e uma POETISA veterinária, ainda por cima… entendia todos os seus instintos. Ele sentia muitos ciúmes dela, coisa que era muito raro acontecer anteriormente.

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