Escuna em Picinguaba - Foto de Carlos Figueiredo, gentilmente cedida para este site

Parte 6

Foram dias de sonhos, ele nem entendia mais nada… Aos poucos foi se entregando. As carícias que ela fazia eram como massagens cósmicas nos pontos certos, mãos que sabiam onde tocar e o momento certo de tocar, tanto o lado masculino como o lado feminino que tanto um como outro tem... Delícias e prazeres que ele nunca conhecera com tanta plenitude, as noites solitárias foram substituídas por carinhos quase eternos, por orgasmos que NUNCA conhecera, com alma, com corpo, com TESÃO e satisfação plena em também saber que ela participava do que estava acontecendo… De anatomia ela entendia e muito…
Realmente pode parecer piada, mas ele nunca havia tido esse tipo de prazer, o prazer sem pressa, sem ter que gozar, ou de gozar e não ter que se preocupar se ela gozara… tudo acontecia normalmente… carne e espírito unidos em um ato de Amor que não havia igreja, montanha, floresta, rio, Deus ou Deusa que pudesse explicar com tanta VIDA, PAZ E TERNURA.

E pensar que tudo começou sem nem esperar… O mesmo Hotel, o mesmo céu, as mesmas estrelas, o mesmo carinho que há tanto eles dois procuravam…

Ela, que vinha de uma experiência matrimonial mal sucedida, também procurava algo que fosse puro, sem o materialismo imposto aos brasileiros que ainda nem brasileiros tinham conseguido ser; ela, que tinha a sensibilidade à flor da pele e conhecia a fundo o ser animal, afinal a Veterinária lhe ensinara muito, mas a vida lhe permitia sentir de fato como os humanos que viviam aqui nesse planeta estavam destituídos da verdadeira essência do ser… Um povo que aceitou Hitler no poder por tantos anos era um povo perdido, um povo que aceitava um Papa cheio de ouro enquanto do outro lado da rua as pessoas passavam fome, um povo que aceitava a Morte como a única coisa certa nessa vida, realmente estava doente, muito doente, e também ela, durante 44 anos, tentara passar aos seus e aos que lhe conheceram o romantismo não só da ILHA DA MADEIRA mas que existia dentro do seu SER que agora estava encarnado na forma de MULHER… Mas que anteriormente havia sido um único átomo vagando pelo espaço, aguardando a sua vez de poder transmitir aos outros quem era e a que viera…

Que coincidência ela o ter conhecido no MATO GROSSO, onde a cultura era parca e os homens eram machistas, sem escrúpulos em relação à mulher, sem carinho mesmo, só queriam a carne, a cama, o sexo, se esqueciam que dentro de um Ser há algo mais que um Poeta qualquer, desses que fazem trovas caretas, sem nexo, só com rimas pobres. Aos poucos foi reconhecendo o seu talento e o convidara a trabalharem juntos em seu projeto de Cavalos de Raça… Já faziam 82 dias que estavam juntos.
Que coisa interessante que é o destino… e o pior é que quem faz o destino é a gente…
Iriam recomeçar, pensara… os dois… Ele não queria dividir esse sonho com ninguém e ela nem imaginava o quanto de MUSA já era para ele…
Aquele voar, aquele sonhar… como seria?

O mais interessante é que tinha muito "pé no chão" durante essa convivência, não era aquela coisa de só sonho, de utopia, de namoradinho abestado que só quer receber e não quer trocar… Era algo novo e maduro. Ele nunca dependera de ninguém, até porque não dava tempo para isso ocorrer fosse com quem fosse, ele sempre estava com a guarda fechada; com ela soltou-se, esqueceu-se de quem era e Ermitou no apartamento de dois quartos que ficara defronte a uma chácara igualzinha à que fora criado no HORTO FLORESTAL… Que interessante tudo aquilo…
Sem se aperceber estava ficando dependente, a hora dela chegar, dela ir, dele a amar, dela o acariciar, cuidar das feridas que tinha por todo o corpo e a alma, feridas que nunca ele se permitiu cuidar, afinal havia sido treinado para MORRER e isso significava não criar laços nem manhas… Depender do Amor é querer mais e mais amar.

 

O Livro ia saindo palavra por palavra sem que ele se apercebesse, o espírito impulsionava seus dedos em direção às teclas daquela máquina de escrever que durante horas a fio era sua companheira, sua confidente, sua AMANTE solitária que a cada toque se soltava mais e mais, e assim ia crescendo o livro e tudo o mais. Ele nem sair saía, para poder concluir o mais rápido possível o que começara, e aos poucos foi nascendo, com trechos do seu viver, O PLANETA EXTERMINADOR… Eram mensagens cósmicas que ele havia recebido e só alguém com muito conhecimento Universal poderia entender… Ele tinha receio de ser internado novamente como foi em 85…

 

Havia recebido vibrações fortíssimas do Cosmo e não conseguia se desligar. Houve uma guerra entre a Inglaterra e outro país, isso tudo em sua mente, e ele havia sido escolhido para evitar o derramamento de sangue, os gases tóxicos que iriam prejudicar a atmosfera e todos habitantes do Planeta, enfim… um guardião.

Quando se apercebeu estava em uma clínica de loucos… horrível… revoltou-se, brigou com uns 4 ou 5, amarraram-no em uma mesa de ferro, com as pernas abertas, apanharam a gaveta de um criado mudo de ferro e bateram com ela em seu tórax, pernas, ventre, em tudo! Ficou dois dias desmaiado, amarrado, torturado, sem nem sentir mais nada até que abriram a cela de portas de aço e o colocaram sob um chuveiro. Ficou ali uma hora mais ou menos. Queria morrer, pois não entendeu porque lhe fizeram tudo aquilo. Ficou por ali, refletindo, até que chegou o enfermeiro com um avental para ele vestir…
Vista isso! E então, já se acalmou?
Ele olhou para o enfermeiro, JAIR era o seu nome, e havia participado nas torturas também. Sabia que estava muito fraco e nada adiantaria reagir agora… Aplicaram-lhe uma injeção, deram-lhe uma cama limpa para dormir… Nem soube quanto tempo dormiu, acordou com um senhor ao seu lado examinando seus ferimentos…
– Você escapou de boa… quem fez isso?
Nunca fora delator e guardou para si a dor que sentia até que chegou o dia da vingança… Houve uma festa, convidaram muitas pessoas de fora, conheceu uma médica homeopata que resolveu cuidar do seu caso e posteriormente o tirou de lá…
Naquela noite todos estavam muito cansados e "dopados". Foi até a enfermaria e percebeu que Jair dormia encostado na mesa… Aproximou-se, viu um frasco de éter, abriu-o e jogou bem próximo ao nariz do enfermeiro que "capotou"; aí aproveitou e se vingou colocando um cigarro acesso sobre o seu rosto adormecido e seus pés descalços receberam ácido sulfúrico… Voltou ao dormitório e deu porrada para dar e vender em todos os que o torturaram… Depois de satisfeitos seus instintos de revolta tomou um banho e foi dormir. No outro dia pela manhã levantou-se muito cedo, fez sua higiene pessoal e foi para o pátio. Estava preocupado, aguardando notícias… Apareceram o Diretor e seus ajudantes, que bateram o sino e iniciaram as atividades do HOSPÍCIO… Aos poucos percebeu que nada de anormal ocorrera ...será que sonhara?... Estava assim pensando quando surgiu o enfermeiro canalha, todo enfaixado, com o Diretor lhe dando mil broncas:
– Está despedido, onde já se viu deixar acontecer o que aconteceu… podiam ter posto fogo em tudo e você, assim como todos os internos, teria morrido, seu irresponsável!…
Os que ele tinha surrado estavam dopados e acordaram como se nada tivesse acontecido, só que seus rostos tinham grandes hematomas que ninguém sabia explicar… Louco é Louco!

Ficou 52 dias ali e tinha como companheiro de quarto um senhor alto, forte que se dizia Presidente do Brasil, estava preso por traição…
Haviam histórias incríveis, como a do velhinho que passava o dia todo fazendo trincheiras no pátio (estava em plena última guerra mundial…) Outro era Napoleão, com chapéu e tudo, e ele pensava que só se via isso no cinema ou televisão, mas a realidade era assim mesmo. No fundo, no fundo, até que entendia aquilo tudo, só não entendia a família deixá-lo ali, mesmo sabendo que havia sido torturado. No dia em que saiu prometeu que nunca mais ficaria em São Paulo… e foi o que fez.

Nunca mais foi internado…

Voltar para O Planeta Exterminador
www.ermitaodapicinguaba.com
© 2004