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Passou
pela velha aldeia nordestina, vinha andando há uns
três dias.
A roupa úmida cheirando a caminho, o chapéu
de palha quase derretido de tanto sol que tomara
Andava
pelas ruazinhas sem gente, sol a pino, ninguém na
rua
Que
sede!!!
Viu
uma porta aberta, aproximou-se
Bem na sombra do umbral
da porta
um velho esquelético, sentado em uma cadeira de balanço,
olhar seco, sem brilho, barba de profeta indú, mãos
finas sem calos, sandálias de franciscano.
"Bas Tarde!"
"Boa Tarde!"
"O Senhor pode dá mode di arranjá um
pouco d'água?"
"Pois não, porque não entra
aí
tá calor
"
Tirou
o chapéu, arrastou os pés no trilho do limpa
pé.
"Sença"
"A
bica é lá no fundo".
Foi entrando
"Casarão
sô!"
Paredes de adobe, janelas tamanho família, família
bem grande, pé direito 6 metros, 5 águas
Madeira? Pinho de Riga
"Pô, casarão
Sô!"
Encontrou a bica a um canto do jardim que era meio pátio,
meio quintal, meio
bem no meio da casa. Casa? "Que
casa sô!" Cheia de arcos, pórticos, olhava
tudo e molhava o rosto, as costas, a cabeça
Baita casa sô!
Um bem-te-vi cantou. Molhou os cabelos encaracolados, largou
o chapéu, meteu a cabeça embaixo da bica,
lembrou do batizado
Lembrou? É
lembrou
"É o Sol!!!" A família, a Igreja,
O Padre, a Água, O Sal, Os Padrinhos, O Sino batendo
"Faz
tempo Sô!"
Aliviou-se do calor e de tudo o mais, ajeitou a roupa no
corpo, chapéu na mão, foi saindo
Ninguém!!!
Nem o velho. "Eita sô!"
Desconfiou, saiu, chegou ao meio da rua, um jegue embaixo
de uma árvore seca batia as patas no chão
"É o sol","quer água".
Olhava o imenso casarão, queria agradecer.
"Não carece"
Olhou para quem falou.
"O sinhô advinhou?"
"É!"
"Pois eu careço sim di gradecer"
"Carece não
ele é muito ocupado
"
"Quem diabos ele É?"
"Dizem que ASSA SINO"
"ASSASSINO?"
engoliu em seco.
"GRADECE
POR MIM"
"INTÉ"
Acelerou o passo
"Meu Padim Padre Cícero!"
Sumiu na curva do horizonte
No
Casarão, lá no fundo, uma corda pendia
6 horas, Ave-Maria
RÁ!
Uma mão sem calos tocou a corda, badalou até
a sexta hora e em seguida badalou até mais poder
Melódica e suavemente, harmonicamente, os pombos
voavam.
O
padre passou: "Eita João, com esse calor você
ASSA SINO!!!
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