arte: Rainhadam

Passou pela velha aldeia nordestina, vinha andando há uns três dias.
A roupa úmida cheirando a caminho, o chapéu de palha quase derretido de tanto sol que tomara… Andava pelas ruazinhas sem gente, sol a pino, ninguém na rua…

Que sede!!!
Viu uma porta aberta, aproximou-se… Bem na sombra do umbral da porta
um velho esquelético, sentado em uma cadeira de balanço, olhar seco, sem brilho, barba de profeta indú, mãos finas sem calos, sandálias de franciscano.
– "Bas Tarde!"
– "Boa Tarde!"
– "O Senhor pode dá mode di arranjá um pouco d'água?"
– "Pois não, porque não entra…aí tá calor…"
Tirou o chapéu, arrastou os pés no trilho do limpa pé.
– "Sença"…
"A bica é lá no fundo".
Foi entrando…
"Casarão sô!"
Paredes de adobe, janelas tamanho família, família bem grande, pé direito 6 metros, 5 águas… Madeira? Pinho de Riga… "Pô, casarão Sô!"
Encontrou a bica a um canto do jardim que era meio pátio, meio quintal, meio… bem no meio da casa. Casa? "Que casa sô!" Cheia de arcos, pórticos, olhava tudo e molhava o rosto, as costas, a cabeça… Baita casa sô!
Um bem-te-vi cantou. Molhou os cabelos encaracolados, largou o chapéu, meteu a cabeça embaixo da bica, lembrou do batizado… Lembrou? É… lembrou… "É o Sol!!!" A família, a Igreja, O Padre, a Água, O Sal, Os Padrinhos, O Sino batendo…"Faz tempo Sô!"
Aliviou-se do calor e de tudo o mais, ajeitou a roupa no corpo, chapéu na mão, foi saindo… Ninguém!!! Nem o velho. "Eita sô!"
Desconfiou, saiu, chegou ao meio da rua, um jegue embaixo de uma árvore seca batia as patas no chão… "É o sol","quer água". Olhava o imenso casarão, queria agradecer.
– "Não carece"
Olhou para quem falou.
– "O sinhô advinhou?"
– "É!"
– "Pois eu careço sim di gradecer"…
– "Carece não…ele é muito ocupado…"
– "Quem diabos ele É?"
– "Dizem que ASSA SINO"
– "ASSASSINO?"…engoliu em seco.
"GRADECE POR MIM"…"INTÉ"…
Acelerou o passo…"Meu Padim Padre Cícero!"… Sumiu na curva do horizonte…

No Casarão, lá no fundo, uma corda pendia… 6 horas, Ave-Maria… RÁ!
Uma mão sem calos tocou a corda, badalou até a sexta hora e em seguida badalou até mais poder…
Melódica e suavemente, harmonicamente, os pombos voavam.

O padre passou: "Eita João, com esse calor você ASSA SINO!!!

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