CRESCIMENTO

 

– Joãozinho, está na hora de estudar menino!
– Já vou mãe!
E lá ficava Joãozinho com seus bichinhos, fazendo suas experiências de criança… se é que os adultos entendem melhor os bichinhos que as crianças.
Havia o rato branco, a cobaia de laboratório, a priá, a tartaruga, o cágado, uma cabra, um gato e um cachorro. Tudo vira-lata. De raça mesmo só os que viriam a ser filhos daqueles. Uma raça apurada e sem pressa, pois na cabeça de Joãozinho a pressa era a inimiga das personalidades
Ele sonhava com seu mundinho, cheio de crianças felizes, animais soltos em bosques plácidos e suaves. Os adultos ali, nem pensar. As atividades estavam ligadas à Terra. Os frutos de um trabalho Natural e Naturalmente sadio.

– Joãozinho!!!
– Tô indo!
Levantava-se e ia em direção ao seu quarto.
– Lave essas mãos menino, será possível que você não cresce nunca? Só pensa em brincar?! Vamos! Vá estudar.
Lavava as mãos no lavadouro, passava uma água no rosto quando de repente no espelho percebeu uma imagem… Refletida pelo vapor do chuveiro que havia sido usado a pouco. A imagem era de um Génio! E parecia viva! Joãozinho afastou-se um pouco, olhou a imagem com mais atenção, sentou-se em uma banqueta para melhor observá-la.

De repente a imagem sorriu…
– Oi Joãozinho, como vai?
– Eu?!!!
– É, você!
Assustado e ao mesmo tempo curioso ele percebeu que ela falava… a imagem.
– Assustou-se? Sou eu, o João!
– Que João?
– O que você será!
– Eu?
– É, você!…
– Eu, um génio?
– Exatamente… você já é um génio e será reconhecido mundialmente pelos seus feitos. Eu vim para saber como estávamos indo…
– Estávamos?
– É, afinal eu sou você e você é eu, então somos nós!
– Há quanto tempo eu estou sendo seguido por você?
– Há muito tempo, muito tempo! Mas, nem se preocupe pois somos o que somos e sempre fomos o que seremos sempre.
– Você só apareceu agora por quê?
– É que você me viu mas eu estou sempre aí onde você está.
– Aqui no banheiro? Sentado?
A imagem sorriu:
– Você realmente é muito inteligente… brinca com coisas que o farão famoso e reconhecido. É por isso que eu o admiro. Você que sempre seguiu seus impulsos fará muita gente feliz, inclusive Eu.
– Eu?… e o que devo fazer?
– Nada…
– Como nada? As pessoas vivem me cobrando horários, alimentação, estudos, escola, igreja, esportes, música, e… nada?!!! Você é louco!
– Sou e não tenho receio nenhum de ser o que sou, afinal eles nunca irão entender-me… Entendiam-me… E graças a você eu continuo a ser o que sou, esse ser louco pelas coisas naturais que a natureza nos trouxe gratuita e ternamente.
– É, você até que é um cara legal. Quer dizer que você conhece meus bichinhos?
– Conheço tudo!

– Joãozinho! Abra essa porta menino!
Assustou-se… a imagem sorria…
– Vá!!!

– Que foi mãe?
– O que você está fazendo? Já lavou as mãos?
– Não, estou me masturbando! Me deixa em paz, dá licença que vou gozar!
A porta fechou-se… A mãe do lado de fora resmungava… O que dizer? Quando o Pai chegasse ele teria uma conversa séria…

O tempo passou, Joãozinho virou João, Dr. João, Engenheiro Florestal responsável pelo Parque Nacional de Chapada dos Guimarães… Viajava pelo mundo todo preservando a flora e a fauna.
Um dia foi visitar seus pais que moravam na mesma casa… foi ao quintal, matou saudades daqueles tempos em que tudo era uma brincadeira. Hoje a responsabilidade nem o permite sonhar…
Alguém entrou em seus pensamentos… era uma vizinha de infância que o visitava sempre… Era muito gostosa, cheia de curvas e com um fogo no olhar que o deixava excitado…
– Joãozinho! A comida vai esfriar, vá lavar as mãos…
– Já vou mamãe…
Saiu de seus devaneios dirigindo-se ao banheiro. Quando começou a lavar as mãos percebeu que o espelho envelhecera e tinha algo nele… Lentamente sentou-se na banqueta que por ali continuava e observou melhor o espelho… O que viu fez com que iniciasse um diálogo íntimo com todo o seu ser… lembrou-se da vizinha, de seu corpo escultural. A imagem parecia sorrir… Que imagem??? estou ficando louco!
E ela dançava nua à sua frente, refletida na transpiração de seus corpos nus… na sala a mãe ia levantar-se, o pai segurou suas mãos…

– Deixe-o sossegado mulher!
– Eu sempre penso que ele ainda é um menino…
No banheiro tudo crescia… crescia… crescia…

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