Era uma Era que sempre era, e a hera crescia ao redor da casa, gerando entre os tijolos ainda aparentes o clima verde e sadio da Era que crescia, crescia, crescia.
O menino brincava com seu cão Coringa quando a babá de 100 quilos, negra, da tribo dos Wambesis, estava colocando a cadeira de balanço na varanda.

De repente, não mais do que de repente, um estrondo ocorreu…
O menino foi lançado a uns 20 metros de distância, o cão negro e Dinamarquês parecia um pequinês assustado. A negra Brasília desmaiou e caiu sem querer bem no assento do Patriarca que não havia chegado ainda.
O vapor da caldeira evolava em violentas nuvens, dirigindo-se ao espaço da Liberdade, um bairro onde moravam Ramos de Azevedo e Pandiá Calógeras, o qual costumava dizer: "Nossa Marinha não tem munição para treinar, melhor seria fosse ela Marinha de Turismo e Reconhecimento, pois a Paz nacional nunca seria quebrada" – essa era a sua opinião.

Os gritos ocorriam dentro do HOSPITAL SANTA HELENA, da Fundação António e Helena Zerrener. Muitos nem imaginam mas esse Hospital era da Antárctica.
Os doentes sendo socorridos juntamente com os feridos, e então chegam os bombeiros. Levam uns trinta minutos até tudo se normalizar. Era uma Era sem confusões, só soluções…
Os bombeiros verificaram os estragos, as vítimas foram socorridas e a PAZ voltou a reinar.

O coração do menino, estendido entre as flores e os arbustos, estava calmo… bem calmo!
Brasília acordou do sonho africano, sacudiu a cabeça com o turbante de crochê branco e voltou a si.
O Dinamarquês lambia o rosto do menino…

Tinha ele 8 anos… 8 anos em que tudo fôra estudos! Desde neném ele tinha a mania de ler e ver figurinhas…
Naquela Era, criança nascia e já era presa com um cueiro, um pano aflanelado que envolvia o bebê, pois o frio era intenso na São Paulo da garoa. Além de ficar amarrado, o bebê ainda ficava em um carrinho escuro por fora, com rodas cromadas… todo inglês…
Aquele menino, várias vezes soltava-se das "amarras" balançando a cabeça que ficava solta, e o corpo, que quando a babá chegava encontrava na maior confusão, no berço de madeira laqueada e enxoval da Casa Almeida & Irmãos.
Não havia jeito dele ficar quieto, e a vida ia continuando com os cinco irmãos, limpinhos, roupinhas de marinheiro, e ele tudo sujo!
Ninguém entendia essa rebeldia, levavam-no aos neurologistas famosos como o grande PINEL, e nada! Seria talvez algum espírito de desarmonia que deveria ser retirado através de rezas caseiras, seria?
A medicina ainda naquela Era era domiciliar, o médico da família, doutor Enéas, ia quase mensalmente tomar chá e falar de saúde… Dinheiro era palavra que não se ouvia nessas horas. O que aconteceu?…

Hoje em dia tudo é verba, e o menino Paranormal percebe que O VERBO foi-se.

Sua alta estirpe, sem necessidade nenhuma de pedir fôsse o que fôsse, não impedia que ele brincasse com o cão… e agora estava ali estendido… O corpo no chão, a alma em cima do flamboyant, o Dinamarquês agora o sacudia com a pata… a babá chorava, pois todos estavam fora. O que fazer?
O doce de abóbora queimou na panela de ferro e o cheiro invadiu a casa, o hall, o jardim, a varanda.
O bairro era de casarões e as famílias que lá residiam estavam preocupadas com a explosão da caldeira.
Coringa, o cão Dinamarquês, saiu correndo pelo portão, como um gamo foi até o ponto de táxi onde os motoristas dialogavam a respeito da explosão, uns passavam flanela nos Belair's ou Mercurys 51, outros indo e vindo trazendo notícias a pé… Coringa saltou pela porta aberta do Belair 51 do "Cabeleira", e danou a latir. Após alguns latidos estridentes alguém viu e ouviu-o…
Hei!!! É o cachorro dos Pereira de Almeida, lá do casarão… O que será que ele quer?
Cabeleira que tinha, como o próprio nome dizia, uma vasta cobertura negra à mostra, com topete e tudo, brilhando ao sabor da Glostora, ficou fulo… Pois era extremamente zeloso com seu Chevrolet Belair, preto, com o teto vinho ou bordeaux. Coringa saltava e já estava mordendo a barra da calça de linho 120 do motorista de táxi que aí percebeu algo errado.
Hei, pessoal! Vamos seguir o cachorro, algo aconteceu lá no casarão em função da explosão!
A comitiva foi então se encaminhando e comunicando ao japonês do empório, ao seu Armando da Barbearia, ao Dudú engraxate, à Márcia Suzuki, ao Delegado que tirara o chapéu Prada, cumprimentando os passantes, e voltou ao saber da notícia.
"Doutor", algo está errado no solar do seu Alípio.

"Doutor" naquela época era raríssimo, e o casarão da rua Pirapitingui foi invadido mesmo com os latidos de Coringa, que precisou ser encoleirado e preso no canil pois revoltou-se com tanta gente. Gania, chorava, uivava… dentro do canil francês… Chegava a morder a tela, de raiva… O arame era importado e não se importava. Os homens, as crianças, a babá, 50 pessoas deviam estar ali… Olharam o corpo estendido na grama ainda úmida do jardim que ele havia mangueirado com jatos d'água finos que geravam arco-íris, os quais o envolviam em Alfa, Beta, Gama e ÔMEGA, permitindo-lhe voar!!!
Cabeleira, que tantas vezes o levara ao Horto Florestal com os irmãos e a mãe, abraçou-o ainda no chão e percebeu que ele estava quente.
– "Ele está vivo!!!"
Agarrou o menino, saiu correndo feito um louco, vazando a multidão que parecia um corredor humano, e foi-se em direção ao Hospital Santa Helena. Passou pela porta de vidro como um cometa. No saguão do Hospital havia um nicho em mármore com a imagem de Santa Helena.
A Madre assustou-se mais uma vez naquele dia fatídico…
– Ele está vivo?
– Cadê o doutor?
– Calma meu filho.
Cabeleira começou a chorar…
– Irmã, ele não pode morrer, é muito novo ainda.
A Madre o tranqüilizou, e com a mão lisa e cor de rosa tocou a campainha redondinha…
Imediatamente chegou uma maca, balão de oxigênio, duas enfermeiras com aventais intensamente brancos e sabedoria no olhar…
Cabeleira ajeitou o menino na maca…
– Ele vai ficar bom? É filho do "seu" Alípio…O PORTUGUÊS…
– Vai, meu filho, foi só um susto, ele é forte e sadio –
disse a Madre.

A porta do Hospital abriu-se após alguns minutos de expectativa… um senhor de terno mesclado, com chapéu negro e óculos ray-ban…
Onde está meu filho?
Era o "seu" Alípio…
Está lá dentro… eu o socorri… a Madre falou que não era nada grave…
O senhor com modos britânicos tinha seus trinta anos aparentemente, bigode fino muito bem cuidado, pele queimada pelo sol da piscina do "Germânia", mãos fortes onde somente a aliança de ouro com 2mm de largura demonstrava ser casado.
A irmã o tranqüilizou quando ele, tirando o chapéu, a cumprimentou… Ficou impassível aguardando os resultados médicos.

Naquela Era o terror não existia, tudo funcionava… A televisão estava começando e tinha programação internacional, vinda em vastos rolos como os filmes do Zorro, Flecha ligeira, Viagem ao fundo do Mar, o Gordo e o Magro, Charles Chaplin, 20.000 Léguas Submarinas, enfim… filmes. Novelas?… só na rádio, e com muita moral!

Passaram-se 35 anos, o menino chegou a Cuiabá, é escritor, mora no Hotel Excelsior, do querido João Celestino Neto, vive criando Artes, é arteiro por Natureza, está escrevendo seu quinto livro: "O Planeta Exterminador". Lançou há pouco tempo "CHAPADA AQUI PANTANAL HÁ LÁ"! Uma homenagem à ecologia humana, pois preservar a árvore sem criar boa safra de pessoas de nada adianta… o círculo vicioso crescerá… CRÊ, SERÁ!!!
Ama a vida, produz ótimos filmes lá fora com a equipe da NPP Acre e a Globotec. Walter Clark, Paulo e Chico Caruso são seus amigos de infância.
O Poder é a inexistência do não poder, diz ele ao falar de Governo.
Deus nunca proibiu nada. Costuma também dizer que tem O GLOBO e não precisa da Rede… Ama sua rede azul onde contempla o sol e os planetas, sonha e vive.
Detesta gente sovina e inescrupulosa… Errar é humano mas fazer errar é desumano.
Foi casado, não deu certo, um dia ele foi embora… nem se despediu… ficou sem ver o filho André Luís que hoje tem 16 anos Terra e curte às pampas o Pai POETA. Detesta brigas, mas quando criam uma com ele nem se fale…
É um grande Idealista, entende de arte de bem viver, bem comer, bem vestir… Seu melhor amigo é Deus!!! O segundo é Mauro Antônio de Castro, o terceiro é Jorge Martins (seu primeiro Guru em S. Paulo), o quarto é o quarto de dormir no Hotel onde nascem as escritas do observador.
Musas são muitas, a maioria amigas… A Mãe de suas filhas é Russa, Catarina Kabaroff, a qual enviou seu Ermitão para o mundo pois é assim seu viver.
A família está feliz, o coração do menino acordou, graças a Deus!!!
Ajudaram com a formação desse Ermitão: Pedro de Orleans e Bragança, Ricardo Zoucas, O EGÍPCIO, Abílio Diniz, o Dinizinho bom de bola, Dudú, o engraxate. Lina, a moça que tem antiquário e sabe das coisas, Denize Caran, a grande moça morena do deserto que conhece o Cássio e já vive no mato para não necessitar nem sonhar, Dona Zezé, mãe do Robertinho da rua Taguá… Maria José Lipi que mostrou outro lado da vida ao Ermitão e fez os Mineiros se amarem desde 1940 até hoje.

O Ermitão às vezes comenta que gostaria de conhecer quem O CRUCIFICOU e por qual motivo até hoje os Padres dizem serem eles os donos da verdade que poucos têm acesso e, para ratificar seus conhecimentos tem um livro sobre o planeta Marte que o inspirou a escrever "O PLANETA EXTERMINADOR".
DEUS PROVERÁ… já dizia sua vó, Dona Lucinda.
Foi caçado em 1968 quando escreveu "O HOMEM MEDO" mas nunca reclamou pois depois da explosão da Caldeira entendeu o quanto ainda tem para explodir…

Quanto ao destino da Terra, podem ficar preocupados os que nada de bom fizeram, no entanto podem se arrepender e, em segundos, recomeçar tudo de novo.
Os que fizeram o bem não fizeram mais do que a própria obrigação!!!
Enfim, é gostoso conversar com quem muitas vezes foi "crucificado" e não se preocupava, como se estivesse indo para o céu.

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