Acordou com os pássaros que amanheceram o dia. Disposto a mudar de vida, saiu da cama, banhou-se, fez e tomou café… Iniciou sua nova "OBRA PRIMA". O tempo passando e sempre buscando o que fazer… afinal, mudar de vida é mudar. Infinitivo!

Vai daqui, vai dali, até que surgiu uma imagem saída daquele bloco de madeira que já estava jogado na varanda há uns 3 meses… Uma imagem de mulher que despontava como o nascer do Sol, cabelos longos, busto como peras, testa grande denotando inteligência, e um brilho, um brilho indefinido que saia de dentro da madeira, algo que mexia com ele toda a vez que ia até o armário improvisado, tirava a garrafa da "boa", tomava um gole e olhava para a estátua de madeira tosca que estava nascendo de suas mãos… Ele a estava criando… a "Obra Prima" que faria companhia para ele até o dia em que alguém a comprasse ou trocasse, como era seu hábito, por algo que necessitasse… A estátua tinha um brilho…

Lembrou-se de sua primeira namorada, tomou outro gole… e continuou trabalhando com o cinzel, moldando aquela madeira que tomava a forma de uma bela mulher… até que surgiu um problema: e a base? Como faria para que "ela" tivesse uma boa base? Uma obra prima merece uma bela base. Buscou em redor do quarto, da sala, da cozinha, do banheiro, do quintal… Nada!!!

Atravessou o mato denso próximo ao Aeroporto, evitava cortar o mato para ficar isolado mesmo. Só Cemi Gidrão e Mary, o casal de amigos, sabiam que ali morava e ali vivia o "escultor"… No fundo, no fundo ele era Poeta, mas não conseguia fazer a vida com Poesia… O Mato Grosso… alto, evitava que vissem a casa e ali ele vivia SÓ…

Chegou a uma obra inacabada, dele, antiga, sorriu interiormente… Tanto tempo se passou e agora ele encontrou o que queria… LAJES!

Lá tinham tantas… Escolheu a mais adequada para sua Obra Prima… Abaixou-se, e ao levantá-la tal qual lápide de um sepulcro, entre a laje e a terra, FORMIGAS… milhares de formigas… Assustou-se… Apanhou um papel, correndo… ateou fogo… Queimou-as, algumas o atacaram mas deu para se safar… Morreram muitas…

Sorriu, apanhou a laje e foi concluir o que havia começado. Dessa vez terminaria tudo bem… Tinha tudo, disposição, alegria, material e sua OBRA PRIMA sairia, ah se sairia…

Antes de adormecer naquele dia sentiu um calor imenso e um formigamento nas mãos, no braço, no tórax… sentiu-se mal… muito mal. Ele? Era bom, até demais! Mau… ou Mal?… E o formigamento crescendo, crescendo, crescendo… crê sendo…

A OBRA PRIMA INACABADA: "UMA PERFEIÇÃO, DIGNA DE UM GRANDE MESTRE" comentou um amigo.
"Um grande Homem… solitário, sem ninguém… bom, bom mesmo… até demais"… falou um outro…
"A Natureza é assim, leva os bons…os ruins ficam".
Na hora do Adeus… a Lápide descia e abaixo dela o formigamento continuava…
"É a vida!" Dissera o Diretor de TV que o admirava mas não o podia ter na "CRIAÇÃO" por causa do vício… "UM GÊNIO".
O Brasil perdeu mais um artista… E o formigamento continuava…
Entre as flores do Campo Santo abelhas sugavam o mel enquanto formigas saíam debaixo da Laje, subiam pela estátua que um amigo levara para o túmulo como última homenagem, milhares de formigas que iam e vinham…
"Formigas" gritou uma dama… Todos foram embora… E as formigas seguindo seu objetivo… sempre!

Ao longe um homem olhava a cena e se admirou ao ver uma estátua viva, ruiva, com a intensidade incrível da vida em seu olhar, o Sol bateu em seus cabelos que ficaram louros, o cipreste fez a sombra...
Morena… igualzinha à primeira namorada, pensava o observador…
"Formigas" …tem cabimento?
Isso é demais!!!

E as formigas voltaram à Terra onde um prato mais suculento as aguardava… bem mais suculento, com e tudo!
Sorriam… Corriam e sorriam…

 

Ermitão da Picinguaba
1986
Várzea Grande - Mato Grosso - Brasil

 

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