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Acordou
com os pássaros que amanheceram o dia. Disposto
a mudar de vida, saiu da cama, banhou-se, fez e tomou
café
Iniciou sua nova "OBRA PRIMA".
O tempo passando e sempre buscando o que fazer
afinal,
mudar de vida é mudar. Infinitivo!
Vai daqui, vai dali, até que surgiu uma imagem
saída daquele bloco de madeira que já estava
jogado na varanda há uns 3 meses
Uma imagem
de mulher que despontava como o nascer do Sol, cabelos
longos, busto como peras, testa grande denotando inteligência,
e um brilho, um brilho indefinido que saia de dentro da
madeira, algo que mexia com ele toda a vez que ia até
o armário improvisado, tirava a garrafa da "boa",
tomava um gole e olhava para a estátua de madeira
tosca que estava nascendo de suas mãos
Ele
a estava criando
a "Obra Prima" que faria
companhia para ele até o dia em que alguém
a comprasse ou trocasse, como era seu hábito, por
algo que necessitasse
A estátua tinha um
brilho
Lembrou-se de sua primeira namorada, tomou outro gole
e continuou trabalhando com o cinzel, moldando aquela
madeira que tomava a forma de uma bela mulher
até
que surgiu um problema: e a base? Como faria para que
"ela" tivesse uma boa base? Uma obra prima merece
uma bela base. Buscou em redor do quarto, da sala, da
cozinha, do banheiro, do quintal
Nada!!!
Atravessou o mato denso próximo ao Aeroporto, evitava
cortar o mato para ficar isolado mesmo. Só Cemi
Gidrão e Mary, o casal de amigos, sabiam que ali
morava e ali vivia o "escultor"
No fundo,
no fundo ele era Poeta, mas não conseguia fazer
a vida com Poesia
O Mato Grosso
alto, evitava
que vissem a casa e ali ele vivia SÓ
Chegou
a uma obra inacabada, dele, antiga, sorriu interiormente
Tanto tempo se passou e agora ele encontrou o que queria
LAJES!
Lá
tinham tantas
Escolheu a mais adequada para sua
Obra Prima
Abaixou-se, e ao levantá-la tal
qual lápide de um sepulcro, entre a laje e a terra,
FORMIGAS
milhares de formigas
Assustou-se
Apanhou um papel, correndo
ateou fogo
Queimou-as,
algumas o atacaram mas deu para se safar
Morreram
muitas
Sorriu,
apanhou a laje e foi concluir o que havia começado.
Dessa vez terminaria tudo bem
Tinha tudo, disposição,
alegria, material e sua OBRA PRIMA sairia, ah se sairia
Antes de adormecer naquele dia sentiu um calor imenso
e um formigamento nas mãos, no braço, no
tórax
sentiu-se mal
muito mal. Ele?
Era bom, até demais! Mau
ou Mal?
E
o formigamento crescendo, crescendo, crescendo
crê
sendo
A OBRA PRIMA INACABADA: "UMA PERFEIÇÃO,
DIGNA DE UM GRANDE MESTRE" comentou um amigo.
"Um grande Homem
solitário, sem ninguém
bom, bom mesmo
até demais"
falou
um outro
"A Natureza é assim, leva os bons
os
ruins ficam".
Na hora do Adeus
a Lápide descia e abaixo
dela o formigamento continuava
"É a vida!" Dissera o Diretor de TV que
o admirava mas não o podia ter na "CRIAÇÃO"
por causa do vício
"UM GÊNIO".
O Brasil perdeu mais um artista
E o formigamento
continuava
Entre as flores do Campo Santo abelhas sugavam o mel enquanto
formigas saíam debaixo da Laje, subiam pela estátua
que um amigo levara para o túmulo como última
homenagem, milhares de formigas que iam e vinham
"Formigas" gritou uma dama
Todos foram
embora
E as formigas seguindo seu objetivo
sempre!
Ao longe um homem olhava a cena e se admirou ao ver uma
estátua viva, ruiva, com a intensidade incrível
da vida em seu olhar, o Sol bateu em seus cabelos que
ficaram louros, o cipreste fez a sombra...
Morena
igualzinha à primeira namorada, pensava
o observador
"Formigas"
tem cabimento?
Isso é demais!!!
E as formigas voltaram à Terra onde um prato mais
suculento as aguardava
bem mais suculento, com mé
e tudo!
Sorriam
Corriam e sorriam
Ermitão
da Picinguaba
1986
Várzea Grande - Mato Grosso - Brasil
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