Saiu da sua Terra Natal como degredado…Chegou onde chegou após muitos anos de sacrifícios, renúncias, formação de seu lar, de sua família, de suas propriedades.
Chegou mesmo a CRÊ-SER e crendo foi crescendo e sendo a família também cresceu, os tempos de infância às vezes passavam, assim como os da juventude pela sua mente…

Vivia em um bairro simples de uma cidade européia, cheia de comércio e movimento, seus dias eram repletos de trabalho no campo, colhendo uvas e amassando com os pés. O vinho era de primeira linha e só quem o bebia eram os nobres, a burguesia. Durante anos seguiu os passos embriagados de seus pés sóbrios e desejosos de também poder sorver das delícias que eram só para quem nem tomar sol tomava, com receio de estragar a pele…

O tempo, inapelável juiz de nossas atitudes, passou por todos e por ele passava "sobrando" essa passagem. Uma noite reuniu três dos seus melhores amigos e decidiram que iriam beber "O" VINHO, afinal eles o faziam…nada mais que direito.

Embrenharam-se pelas colinas sentindo água na boca, as estrelas no céu pareciam indicar o caminho certo. A Lua, aprisionada ao magnetismo do sistema Solar…Só Lar…meio cheia de tudo escondeu-se por detrás de uma nuvem e sorrateiramente deliciava-se com a AVENTURA dos quatro. Até porque muitos saudavam-na com "brindes" em Terra ou Alto Mar e ela mesma tinha que à distância aceitar fosse o que fosse …estava presa!!! E naquele dia as nuvens que por ali passassem permitiriam que ela participasse sem se envolver, apesar de que, de certa forma, era ela a responsável por boa parte do que ocorria no Planeta Terra…TER... RA!!! Ter... Deus Sol!

Os quatro rapazes chegaram à vinícola. Ale Mohamed tirou o chapéu de feltro com aba curta, bateu nas pernas que estavam cheias de picões do mato. Olhou ao redor, nada o preocupava. Seus colegas estavam cada minuto mais excitados…

-– Vamos!!! -– entraram sorrateiramente pelo galpão de madeira a dentro, chegaram onde ficavam armazenados os "Quintos"…surripiaram alguns e saíram da mesma forma que entraram, só que sobrecarregados…e lá se foram.

Ao chegarem em um bosque colocaram os "quintos" sob a água de uma fonte para refrescá-los. Ale Mohamed preparou seu cachimbo e sorria ao saber que logo, logo iria saborear o que a vida inteira fez!
Um dos companheiros deitou-se sob a copa de um cipreste e observava a Lua observando-os. O outro tirou as botinas e as meias, aliviando seus pés da longa caminhada. O terceiro impetuosamente apanhou seu "quinto" e antes mesmo que os outros resfriassem sacou da rolha que já há muitos anos por ali estava protegida por uma camada de breu e emborcou o líquido precioso do néctar baconiano. A cada gole uma sensação nova, cantou, dançou, enquanto os outros pouco a pouco também apanhavam seus "quintos" e lá iam em suas ilusões soltando-se… só indo onde sempre quiseram ir.

Sorviam cada gole como se o último fosse e assim chegaram, cada qual do seu jeito e modo, ao estágio dos sonhos de olhos abertos.
Após todos estarem "viajando sobre as nuvens" resolveram ir para a vila caminhando e bebendo, cantando, dançando, voando, sonhando…

Acordou de seus pensamentos com o filho mais novo chamando-o:
-– Papai, Papai!!!
-– Diga, meu filho!!!
-– O senhor sabia que vamos ver aquelas terras hoje à tarde?
-– Sabia não, sei!!!
-– Pois então, disseram que pertencem aos Índios…
-– E Índio lá tem alguma coisa?
-– Bem, o senhor sabe o que faz! Até mais tarde…

Balançou-se na rede, acendeu um cigarro de palha que já havia enrolado antes de "sonhar", levantou-se, foi à cozinha, deu um tapa na bunda da mulata que lhe serviu café ...Cá...Fé... e saiu em direção ao cavalo que iria levá-lo novamente a ver as suas terras.
Observou se a espingarda estava carregada junto à sela, passou pelo celeiro, apanhou um cinturão de balas, e sem esperar ninguém seguiu pelo mato a dentro... "Terra de Índio, essa é muito boa…"

Cavalgou umas léguas até chegar ao monte que permitia avistar as terras que iriam utilizar para pasto, lá embaixo…

E lá embaixo estava a aldeia dos Índios, pacífica, com muitas crianças brincando com algumas cabras e porcos. As crianças descalças pisavam na terra enquanto mulheres socavam uma espécie de tacape em um pilão. Observou com um binóculo tudo o que lá acontecia…

De repente percebeu algo que lhe chamou a atenção…uma Índia grávida e um Índio socavam com os pés algo que estava dentro de uma tina de madeira… sorriam enquanto pareciam dançar…Os dois foram substituídos por um casal idêntico… ela grávida, vestida com um traje feito com couro pintado. Os que saíram iam em direção a um velho Índio que sentado em um tamborete de couro pintado, tendo um cocar com chifres de búfalo e penas multi-coloridas, fumava um grande cachimbo, cuspia no chão a cada tragada, pegava o cuspe com o barro que formava, passava na testa dos dois e lhes indicava uma choça toda preparada por onde uma fumaça branca saía.
O ritual continuou por umas cinco ou seis vezes. Vários casais e sempre a mulher Índia estava grávida, socavam a mistura que havia na tina, recebiam a "bênção" do que parecia ser um Pagé e seguiam para a tenda de onde saia a fumaça branca…

Ele foi se aproximando pela mata sem se preocupar muito, deixando o cavalo ir naturalmente como se aquela fosse a sua rotina diária…

Aquela aldeia ainda estava intacta…PURA! Sabia a linguagem deles…Ao chegar, um indiozinho que corria atrás de um cabritinho olhou para o belo animal que ele montava, respirou de emoção e sorriu, ele tirou o chapéu ao se aproximar mais da aldeia e fez um sinal com a boca parecido com o uivo de um lobo…
O Índiozinho que vinha logo atrás sorriu juntamente com os outros da Aldeia

O Pagé continuava sentado e muito sério, nem olhou para o estranho que se aproximava…

O Indiozinho alertou os outros e o mais velho deles aproximou-se, falou algo, todos acorreram em direção ao cavaleiro que recolocara o chapéu e abria um alforge entregando a cada um algumas pedrinhas brilhantes e coloridas amarradas com um fio de nylon. Eles pulavam de alegria enquanto o ritual dos casais continuava muito sério e discreto do outro lado da aldeia.

Ele foi se aproximando, agora a pé, rodeado pelos índios mais jovens… Ao chegar ao centro do Taba, o que parecia ser um Cacique aproximou-se do casal que "amassava" a mistura com os pés. O casal retirou-se e seguiu o Ritual. O Pagé então levantou-se, aproximou-se da grande tina, apanhou uma cuia que pendia de uma árvore próxima, enfiou-a com muito mistério dentro da tina, levantou-se em reverência ao Sol, com a cabeça baixa dirigiu o conteúdo da cuia aos lábios…
Outro Índio assomou da grande choça também com um grande coçar de penas que iam até aos joelhos. Aproximou-se da velha tina, jogou com as duas mãos algo parecido com cinza dentro dela. Tirou do seu pescoço umas penas, banhou-as dentro do líquido misterioso, colocou-as novamente no pescoço e com uma das mãos fez um círculo em direção ao Sol…cantava e com os pés fazia um movimento ritmado no chão…dançava, cantava, sonhava…
O ritual durou vários minutos, então ouviu-se dentro da grande choça um choro de criança. O Índio que havia bebido do líquido sorriu, o outro continuava a fazer círculos e dançava e cantava e sonhava…A música dizia…LUZ !!!

Dali a pouco assomou à porta da grande choça uma Índia Idosa com um bebê recém nascido nos braços e o cordão umbilical cortado entre os lábios, soprava e o cordão enchia-se do sopro da vida… Aproximou-se da grande tina, entrou e começou a cantar e a dançar, pisando lá dentro como se pisasse em nuvens…

Ale Mohamed olhou tudo aquilo, deu meia volta e voltou para a mesma rede, outro cigarro, o mesmo tapa na bunda da mulata que lhe serviu o café…

O filho chegou numa carroça…
Papai! Vamos lá ver as terras?
Não, ninguém mais vai lá, NINGUÉM!!!

O filho deu meia volta com a carroça e sumiu…

O cigarro apagou, o HOMEM sonhava, no sonho ele era um coroinha; a missa era em Latim… O Padre falando:

"In nome di Patre, Di Fili e di Spiritus sanctus…Amén…Amén…In…Dio…
Em Deus!!!

A cadeira balançava, o Homem sonhava, voava, cantava, dançava…
Ao seu lado, sobre uma mesinha com toalha da Ilha da Madeira, um Quinto de Vinho Madeira... Vazio!

 

( Escrito em 1987 no Pantanal... do Mato Grosso, Brasil )

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