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Saiu
da sua Terra Natal como degredado
Chegou onde chegou
após muitos anos de sacrifícios, renúncias,
formação de seu lar, de sua família,
de suas propriedades.
Chegou mesmo a CRÊ-SER e crendo foi crescendo e
sendo a família também cresceu, os tempos
de infância às vezes passavam, assim como
os da juventude pela sua mente
Vivia
em um bairro simples de uma cidade européia, cheia
de comércio e movimento, seus dias eram repletos
de trabalho no campo, colhendo uvas e amassando com os
pés. O vinho era de primeira linha e só
quem o bebia eram os nobres, a burguesia. Durante anos
seguiu os passos embriagados de seus pés sóbrios
e desejosos de também poder sorver das delícias
que eram só para quem nem tomar sol tomava, com
receio de estragar a pele
O
tempo, inapelável juiz de nossas atitudes, passou
por todos e por ele passava "sobrando" essa
passagem. Uma noite reuniu três dos seus melhores
amigos e decidiram que iriam beber "O" VINHO,
afinal eles o faziam
nada mais que direito.
Embrenharam-se
pelas colinas sentindo água na boca, as estrelas
no céu pareciam indicar o caminho certo. A Lua,
aprisionada ao magnetismo do sistema Solar
Só
Lar
meio cheia de tudo escondeu-se por detrás
de uma nuvem e sorrateiramente deliciava-se com a AVENTURA
dos quatro. Até porque muitos saudavam-na com "brindes"
em Terra ou Alto Mar e ela mesma tinha que à distância
aceitar fosse o que fosse
estava presa!!! E naquele
dia as nuvens que por ali passassem permitiriam que ela
participasse sem se envolver, apesar de que, de certa
forma, era ela a responsável por boa parte do que
ocorria no Planeta Terra
TER... RA!!! Ter... Deus
Sol!
Os
quatro rapazes chegaram à vinícola. Ale
Mohamed tirou o chapéu de feltro com aba curta,
bateu nas pernas que estavam cheias de picões do
mato. Olhou ao redor, nada o preocupava. Seus colegas
estavam cada minuto mais excitados
-
Vamos!!! - entraram sorrateiramente pelo galpão
de madeira a dentro, chegaram onde ficavam armazenados
os "Quintos"
surripiaram alguns e saíram
da mesma forma que entraram, só que sobrecarregados
e
lá se foram.
Ao
chegarem em um bosque colocaram os "quintos"
sob a água de uma fonte para refrescá-los.
Ale Mohamed preparou seu cachimbo e sorria ao saber que
logo, logo iria saborear o que a vida inteira fez!
Um dos companheiros deitou-se sob a copa de um cipreste
e observava a Lua observando-os. O outro tirou as botinas
e as meias, aliviando seus pés da longa caminhada.
O terceiro impetuosamente apanhou seu "quinto"
e antes mesmo que os outros resfriassem sacou da rolha
que já há muitos anos por ali estava protegida
por uma camada de breu e emborcou o líquido precioso
do néctar baconiano. A cada gole uma sensação
nova, cantou, dançou, enquanto os outros pouco
a pouco também apanhavam seus "quintos"
e lá iam em suas ilusões soltando-se
só indo onde sempre quiseram ir.
Sorviam
cada gole como se o último fosse e assim chegaram,
cada qual do seu jeito e modo, ao estágio dos sonhos
de olhos abertos.
Após
todos estarem "viajando sobre as nuvens" resolveram
ir para a vila caminhando e bebendo, cantando, dançando,
voando, sonhando
Acordou
de seus pensamentos com o filho mais novo chamando-o:
- Papai, Papai!!!
- Diga, meu filho!!!
- O senhor sabia que vamos ver aquelas terras hoje
à tarde?
- Sabia não, sei!!!
- Pois então, disseram que pertencem aos
Índios
- E Índio lá tem alguma coisa?
- Bem, o senhor sabe o que faz! Até mais
tarde
Balançou-se
na rede, acendeu um cigarro de palha que já havia
enrolado antes de "sonhar", levantou-se, foi
à cozinha, deu um tapa na bunda da mulata que lhe
serviu café ...Cá...Fé... e saiu
em direção ao cavalo que iria levá-lo
novamente a ver as suas terras.
Observou
se a espingarda estava carregada junto à sela,
passou pelo celeiro, apanhou um cinturão de balas,
e sem esperar ninguém seguiu pelo mato a dentro...
"Terra de Índio, essa é muito boa
"
Cavalgou
umas léguas até chegar ao monte que permitia
avistar as terras que iriam utilizar para pasto, lá
embaixo
E
lá embaixo estava a aldeia dos Índios, pacífica,
com muitas crianças brincando com algumas cabras
e porcos. As crianças descalças pisavam
na terra enquanto mulheres socavam uma espécie
de tacape em um pilão. Observou com um binóculo
tudo o que lá acontecia
De
repente percebeu algo que lhe chamou a atenção
uma
Índia grávida e um Índio socavam
com os pés algo que estava dentro de uma tina de
madeira
sorriam enquanto pareciam dançar
Os
dois foram substituídos por um casal idêntico
ela grávida, vestida com um traje feito com couro
pintado. Os que saíram iam em direção
a um velho Índio que sentado em um tamborete de
couro pintado, tendo um cocar com chifres de búfalo
e penas multi-coloridas, fumava um grande cachimbo, cuspia
no chão a cada tragada, pegava o cuspe com o barro
que formava, passava na testa dos dois e lhes indicava
uma choça toda preparada por onde uma fumaça
branca saía.
O ritual continuou por umas cinco ou seis vezes. Vários
casais e sempre a mulher Índia estava grávida,
socavam a mistura que havia na tina, recebiam a "bênção"
do que parecia ser um Pagé e seguiam para a tenda
de onde saia a fumaça branca
Ele
foi se aproximando pela mata sem se preocupar muito, deixando
o cavalo ir naturalmente como se aquela fosse a sua rotina
diária
Aquela
aldeia ainda estava intacta
PURA! Sabia a linguagem
deles
Ao chegar, um indiozinho que corria atrás
de um cabritinho olhou para o belo animal que ele montava,
respirou de emoção e sorriu, ele tirou o
chapéu ao se aproximar mais da aldeia e fez um
sinal com a boca parecido com o uivo de um lobo
O Índiozinho que vinha logo atrás sorriu
juntamente com os outros da Aldeia
O
Pagé continuava sentado e muito sério, nem
olhou para o estranho que se aproximava
O
Indiozinho alertou os outros e o mais velho deles aproximou-se,
falou algo, todos acorreram em direção ao
cavaleiro que recolocara o chapéu e abria um alforge
entregando a cada um algumas pedrinhas brilhantes e coloridas
amarradas com um fio de nylon. Eles pulavam de alegria
enquanto o ritual dos casais continuava muito sério
e discreto do outro lado da aldeia.
Ele
foi se aproximando, agora a pé, rodeado pelos índios
mais jovens
Ao chegar ao centro do Taba, o que parecia
ser um Cacique aproximou-se do casal que "amassava"
a mistura com os pés. O casal retirou-se e seguiu
o Ritual. O Pagé então levantou-se, aproximou-se
da grande tina, apanhou uma cuia que pendia de uma árvore
próxima, enfiou-a com muito mistério dentro
da tina, levantou-se em reverência ao Sol, com a
cabeça baixa dirigiu o conteúdo da cuia
aos lábios
Outro Índio assomou da grande choça também
com um grande coçar de penas que iam até
aos joelhos. Aproximou-se da velha tina, jogou com as
duas mãos algo parecido com cinza dentro dela.
Tirou do seu pescoço umas penas, banhou-as dentro
do líquido misterioso, colocou-as novamente no
pescoço e com uma das mãos fez um círculo
em direção ao Sol
cantava e com os
pés fazia um movimento ritmado no chão
dançava,
cantava, sonhava
O ritual durou vários minutos, então ouviu-se
dentro da grande choça um choro de criança.
O Índio que havia bebido do líquido sorriu,
o outro continuava a fazer círculos e dançava
e cantava e sonhava
A música dizia
LUZ
!!!
Dali
a pouco assomou à porta da grande choça
uma Índia Idosa com um bebê recém
nascido nos braços e o cordão umbilical
cortado entre os lábios, soprava e o cordão
enchia-se do sopro da vida
Aproximou-se da grande
tina, entrou e começou a cantar e a dançar,
pisando lá dentro como se pisasse em nuvens
Ale
Mohamed olhou tudo aquilo, deu meia volta e voltou para
a mesma rede, outro cigarro, o mesmo tapa na bunda da
mulata que lhe serviu o café
O
filho chegou numa carroça
Papai! Vamos lá ver as terras?
Não, ninguém mais vai lá, NINGUÉM!!!
O
filho deu meia volta com a carroça e sumiu
O
cigarro apagou, o HOMEM sonhava, no sonho ele era um coroinha;
a missa era em Latim
O
Padre falando:
"In
nome di Patre, Di Fili e di Spiritus sanctus
Amén
Amén
In
Dio
Em Deus!!!
A
cadeira balançava, o Homem sonhava, voava, cantava,
dançava
Ao seu lado, sobre uma mesinha com toalha da Ilha da Madeira,
um Quinto de Vinho Madeira... Vazio!
(
Escrito em 1987 no Pantanal... do Mato Grosso, Brasil
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