IR  E  VIR

 

Último dia de aula, que ano! Quantos dissabores… A sala de aula vazia, alunos no pátio, a Professora corrigindo seu último diário… Greves!…
"É, esse ano não foi fácil, voou!!!".

O mais sacal dos alunos entra:
– Dá licença…
– Entre, como vai?
– Vou indo
– Vim despedir… Obrigado por tudo!
Saiu…

Ela ficou pensando: Engraçado, o ano inteiro brigamos! E ele provou ser um bom aluno… Lembrou-se há quanto tempo lecionava… Saudosamente passou e repassou o passado por sua mente… uma vida! Detestava ser Professora hoje em dia. Tinha seus conceitos formados e as Escolas cada dia podando mais os alunos. Ela realmente estava ficando muito magoada com tudo isso. O mesmo aluno com quem ela tanto brigou por não ser atencioso em classe passou a ser um dos melhores, um excelente aluno… Os muito aplicados, ela às vezes sentia serem condicionados por apostilas, testes de múltipla escolha… Enfim… era a vida! Ir e vir…
As férias vieram…

Estava em Fortaleza… de repente uma confusão danada na praia… Aproximou-se… Eram os pescadores vendendo seus peixes… Muito mais gente que peixe… Entre eles, qual não foi sua admiração, lá estava o Rebelde… o que ela tanto brigava!
– Oi professora! Como vai a senhora? Vai levar peixe?

Interiormente ela sorria, ele era um pescador… Filho de pescador…peixinho é! Aproximou-se… sorriu, a jangada cheia de pescado, até uma tartaruga ia e vinha entre os peixes que a rede aprisionava… O pai ao lado.

– Pai, essa é minha professora…
O bom homem tirou o chapéu salgado…
– Boa tarde dona! Escolhe o que melhor lhe aprouver… fique à vontade!
A simplicidade a emocionou.
– Nem sei limpar…
– Fica fria, eu limpo…

E ela escolheu um que parecia lhe pedir para ser levado e retirado daquela prisão de torturas sem água. Ele apanhou a peixeira, limpou em segundos o bitelo… embrulhou em um jornal… "Greve dos Professores", era a manchete. Coincidência? O pai continuava servindo outras pessoas…
– Quanto é?
– Nada não… presente!
Emocionou-se mais ainda…

Ele dirigiu-se até à beirinha d'água para lavar as mãos e a peixeira…
Agachou-se e lavou-as no IR e VIR da água…
– Nada?…
– Nado!

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