Um dia o Ermitão chegou em meu Rancho montando um Amarilo, cavalo que tem a crina clara e a pelagem quase amarela. Vinha com um ar de intelectual, havia penteado os grandes cabelos encaracolados, desceu do Quarto de Milha como se descesse o degrau de sua casa, apanhou um grande livro no alforge de sela e dirigiu-se à minha varanda…

– Eu agora vou ficar famoso por preservar O PANTANAL, olha só o trabalho que fiz para um grupo de empresas que deram-me uns cromos sobre O PANTANAL, sua gente e as cidades que lá existem.

Eram esses arroubos que denotavam os conhecimentos que ele tinha, mas que durante muito tempo escondia das pessoas, como se quisesse passar por ignorante. Acredito inclusive que ele fazia muita apologia aos que nada sabiam sobre o mundo lá de fora, pois só servia para atrapalhar as mensagens que recebiam do Alto. Afinal, "a Terra está no Espaço também e somos seres espaciais e não terrenos", dizia Dominique, uma amiga que o conheceu e, pelo pouco que sentiu, conseguiu abrir o coração daquele homem solitário e taciturno que dificilmente perdia tempo em explicar as coisas para as pessoas.
Abri o livro, e as fotos que vi realmente eram maravilhosas. A cada foto colorida havia uma crônica que ele escrevera. Decidiu colocar nesse livro tudo que ali estava, pois realmente dava uma visão real do que era O PANTANAL MATOGROSSENSE.

Começara com os TUIUIUS.

Sempre que se vê ali o líder a bailar, bailam também os espaços do aqui e a liderança natural leva através do Balé Aquoso, o início desse vôo eterno, plano, terno e pantaneiro. Voa, Voa, tuiuiú e diga ao Bicho Homem que voar é para as aves e sonhar é para eles que, ao invés das almas enlevar, trazem, infelizmente, as armas e querem a vossa bela Vermelha, Preta e Branca Bandeira de plumas derrubar.

A cada animal, pessoa ou cidade ele dissertava cronicamente:

A seguir vinha a Flora

Flora, Flora, Flora, ah madrinha Flora! Em amarelo retinto trazendo da Terra esse brilho que se encerra nesse orgasmo Natural que por raízes invisíveis embeleza o PANTANAL.

 

FLORA… FAUNA…

Trindade da ecologia, a Flora, a Fauna e os Ninhos a Vadiar, a invadir, a Unir. Filhotes emplumados sob peitos adornados. Trindade da Natureza em duas páginas de couchê. Ah!!! Trindade, Trindade… o cio do macho buscado pela fêmea e o vôo dos filhotes a seguir rio abaixo… nuvem, direção Mar! Trindade, Trindade, sois a criação nas páginas da vida, sois a emoção em DEUS nunca dividida… Sempre Unindo e Unida.

 

PÁSSAROS VOADORES!

Intrépidos buscadores, suaves voadores… tranqüilos ninhadores. E em meio a tantas dores o Efeito dos Amores, das Ilhas em ramos e dos ramos em Ilhas Espaciais. Que lindo, que belo, que elegante o vôo dos animais… Animai-vos! À frente da gente tem sempre mais, muito mais… sonhos líricos e Real Idade dos Deuses Naturais.

 

VEADO PANTANEIRO

Lá no meio é ele a banhar-se e elas a acarinhar sua manta cor de mel. Galhada em direção Céu. Patas entre os lodos energizando toda sua animal Realeza. Enquanto guardiãs invisíveis zelam entre as margens o banho. Peito na água do Veado Pantaneiro que vem dia a dia crescendo e segue, Crê sendo… vi vendo…

 

OS PANTANEIROS

Ferro de marcar, menino jovem, jovem menino, laço com breu, com sebo, com braço de aço, mãos sem anéis, anéis de couro a laçar o touro e tudo o que for de laçar, com a energia do solo, sem o terror ou temor. Solistas Pantaneiros a cercar com a raça do Nelore, toda raça. E o cavalo Pantaneiro ausente à cena e à imagem do jovem e do menino diz: "Na água sou mesmo Forte, sou ousado Garanhão que empino, laçar ao boi ensino ao menino."

 

ENCHENTE

Enchente gente… enchente!!! e lá vem a água que sabe-se lá de onde veio. Inunda, abunda, enriquece, assim como no Egito o Rio Nilo Sagrado, aqui o Pantanal… meio de vida, Riqueza, Património que o trem leva em comboios e o canoeiro em pau vazado… estradas da vida a esperar enchente… enchente… Estrela Cadente que vem, levando para o outro lado a água. Estrela que na boléia do caminhão no asfalto, ilumina o motorista. Aqui no Pantanal essa estrela vai chegar e quando o Diesel explodir, pela estrada do crescer o Homem Pantaneiro descobrirá pela estrada de terra ou asfalto o IR e o VIR… Seco, sem enchente, com rodas que giram e o afasta da origem para o devolver original… criativo… crescente… ativo… vivo!!! Forte.
Estrela, esse da enchente é o maior motivo. E o vagão inundado locomotiva. Loco… Motiva...

 

EM TARDE SER

Entardecer remo descansa… lança disfarçada, mente aberta, mente Amada… relógio no pulso marcando o impulso da sensação do fato…da foto… lembrança de criança de Ancião que sem rede amarra os buracos do viver e deixa foto registrar mais um pescador e se purificar esperando dorso nú, pés no chão, a noite Amada chegar… o dia novo nascer…

 

MESTIÇO

Olha desconfiado, no peito muita fé, o mestiço isolado em seu pau a pique a sapê… a objetiva fotografa e Ele, olhos semi-cerrados, desafia o objetivo, ser maior do que ser escravizado nessa senzala fotográfica que rebusca o seu Universo… desafia… fica só… confia… está com a mãe Maior… só… bem só…

 

LAVADEIRAS

Tábua de limo escorregadio, roupa que lava o suor n'água da praia. Molhadas as pernas, molhada a saia, molhado o molhe da roupa, molhada a mulher por inteiro, ventre de filho a vir… sabão de banha a limpar a alma da roupa em manhã tão calma de um novo dia a nascer.

 

CIDADES

Cidades à beira rio, Igreja fio a pavio, luzes dessa ribalta que aos nossos olhos sobressalta… Torre alta… raiz baixa… enchente… cidade… centro de concreto onde mora uma parte da gente… e o crepúsculo a anunciar a cor do Amor… água pé… sem flor… cidade, antiga vila… beira de rio… Dezembro, Janeiro, Primavera, Verão, Outono, Inverno, cidades… quantas serão? Cidades quantas virão? Se Deus assim quer, assim será… cidades e mais cidades à beira dos rios, os rios a iluminar… E o Forte de Coimbra Portugal a lembrar.

 

MENINO, MÃE, PAI…

Lá vai o menino canoa a ninar, lá vai a Mãe o meio a gerar, lá vai o Pai remo de leme… Negro Azul, mestiça, água pé, água azul… gente encanoada, gente abençoada, transpirante instante do ir…remos… paus… paus… remos e dizem os três… Pai, Filho e Espírito Materno… é só isso Senhor, só isso o que queremos… por isso é que vivemos…

 

ARTESANATO

O barro virou artesanato, a vida virou forma…
Ar, Tesão… Respiração… Inspiração…

 

GAÚCHO

Suga moço, suga o mate verde e quente Pantanal. Sonha Gaúcho, sonha, na sobriedade do Tereré e no chifre do boi que se foi, a Paz de bomba na mão… Suga Moço, suga… livra seu rosto da… da ruga…

 

VÓ, MENINO… GALO!

Vó com Pilão… soquete na mão. Neto afeto, janela larga, Pantanal, Lar, Afeto. E a vida a socar em paus furados o que se irá farinhar… vó neto… Amor bem certo, bem perto… Céu a descoberto… galinha… galo… fubá… é hora, é hora, venha galo cantar…

 

GAIOLA…EMBARCAÇÃO

Segue a gaiola a subir, com ruído de motor, o movimento do calado… calado de embarcação, que cala a criação, que embala as águas Pantaneiras e cria tapetes mágicos e voar às linhas verdadeiras. Sonha, sonha o Turista e o barulho do motor ao Tuiuiú leva o mantra do Mar…
E as lagoas vão nascendo, no transbordar das águas e das mágoas salgadas tal qual transpirantes instantes sabor Mar… transpiração… enquanto seus meandros de água vão e vêm em vôos de pirilampos a entardecer o nascer…

 

PALAFITAS

Palafitas inundadas, coloridos disfarçando a dor do tudo Perder e o que fazer? Progresso ou sucesso? Dúvidas para quê? Ilumina Deus nosso caminho onde vamos fazer nossa casa, nosso lar, nosso ninho de gente? As águas vão voltar e ninguém, ninguém tem onde morar. Palafitas Fitas Palas, queques, divisas, e vem o que for em nome do Amor dar um jeito de gente para a gente que tem a vida e sabe que é dura a Enchente…

 

ORQUÍDEAS

Azul entremeado de Amarelo, misturado ao Vegetal, ao Animal Voador, ao Peixe devorador, que assanha sua fileira de dentes desprezando os Homens e acreditando em Duendes. Deuses Pantaneiros, Deuses Universais. É lindo ver os Deuses com seus tinteiros tingindo, vivificando e criando lenta e naturalmente a Cartografia do Pantanal, onde estrelas voadoras são brancos pontículos a brilhar, a voar, a fazer o Bicho Homem sonhar… só sonhar…

 

SOL!

Bom dia meu amigo Sol, eu quero te cumprimentar, diz o pescador canoeiro e o Sol que se alimenta de energia o energiza, enraíza… eleva ao céu, abelha sugando o mel… remo n'água peixe d'água… entre Sol e faça a vida da gente mais viva… A Cor Dando… A Cor Dar Sol… É assim Natural O PANTANAL Pantaneiro Sol, Nosso Deus verdadeiro e belo por inteiro, sempre no Pantanal de Janeiro a Janeiro.

 

GARÇA BRANCA

Solitária Garça Branca que suas asas abre, abrindo o coração. Sois a pureza do belo, sois o Branco da Razão. Sois assim tão aberta e tão certa como a Lua em noite descoberta. Sois a Garça que traz em seu voar a lembrança do Nascer, a lembrança, só a lembrança que um dia fui você!!!

 

INUNDOU O PANTANAL!

Inundou o Pantanal, Pleonasmo visual das águas que lá já estão, Ilha, Ilhota, Filha, filhota. Tudo que dali não é inunda, e fica o Sol esperando. Venha Gente, venha ver esse verde… verde escuro d'água que invade a terra que resta e depois que ela baixa energiza e deixa à Terra tudo que O HOMEM precisa. Eita tempo de enchente, que vem e assusta a gente, eita tempo que na vazante fazia essa gente achar a pequenez de si, a que inundava e não dava… e não dava… e não dava… é pouca gente e muita água… venha gente, venha zelar pelo Pantanal, porque o Progreso vertente é quem vai aos poucos fazendo a enchente não mais assustar… e assim a gente não mais vai fugir da enchente… venha gente, venha… a Montanha se escondeu, a água vem lá de cima levando para o oceano o mundo que já morreu… Pacífico… Oceano agitado… viva gente viva!!! No giro desse Planeta, Deus o Homem escolheu… e O HOMEM AMA DEUS!!! Por isso, dizer Adeus não é motivo só meu… Há Deus!!!

 

O PÁSSARO E A CERCA

E você que vai até à cerca o seu pescoço roçar, cercado o Pantanal, cercado. Esse mesmo é um pecado que a Deusa Natureza nunca vai perdoar, pois a Deusa criação não merece, não cresce em onde a cercam… em onde a invadem em quem só tem a certeza de Ser Teza a Natureza… de ser incerta a hora certa que faz roçar o pescoço do pássaro, que o Aço vai desafiar…


O que escrevera falava da vida do Pantanal e cidades como Corumbá, que ficavam ali, bem ali onde a água beirava.

– Muito bonito esse trabalho Ermitão!!!
– Não é trabalho, é prazer!!!

Subiu no Amarilo e foi-se.

 

Voltar para Atualidades-Coletanea
www.ermitaodapicinguaba.com
© 2004