Parecia fácil
o que lhe falavam. Em seu íntimo algo a lhe dizer que aquilo
tudo era uma farsa, algo de errado que ele iria fazer e daí sua
vida estaria todinha enrolada.
Puxa vida! Tanto tempo só indo, vindo, batalhando para deixar
alguém feliz e ele só se ferrando. É bem se ferrar
mesmo
dá-lhe ferreiro, uma em cada pata
Ferrado!
Curto circuito! Afinal, o fio Terra elimina esse choque de energias.
Ah, se ele pudesse
de fato sentar, só escrever, deixar fluir o Tudo que no fundo
só ele conhecia e estava interessado em conseguir transmitir
para o Povo.
É
, esse povo que sub-nutrido ou burguês iria curtir
pra cacete o que ele escrevesse.
Falar é fácil! Como iria viver? Estava com 42 anos de
idade, desde criança dando um jeito de "se virar",
se manter honestamente, sem prejudicar ninguém.
Lembrou-se, como
sempre, dos áureos tempos, Mercedes, apartamento duplex, casa
com jardim na praia, filhos de criação e próprios,
muita grana, muitos convites, viagens mil
Bons tempos
E
agora?
Escrever que era o que o motivava neste instante e em tempos distantes
também. Guardanapos de botequim, se recolhessem todos, hoje talvez
desse uma carreta lotada. Enredos de filmes inacabados, contos, livros,
ah!
"Isso tudo não leva a nada!" diziam
Gente sem
cultura
E aquele pessoal
ali no Aeroporto, o mesmo em que ele havia visto um grande Amor partir
e nunca mais voltar. Voltar pra quê? Viver com um "duro",
mão aberta ainda por cima, pagava para todos em um dia e no outro...
duro!
Louco, um cara irresponsável, bêbado. Voltar pra quem?
pra quem?
"Esse pessoal tá tirando uma com a minha cara, logo eu,
tá bom!" Despediu-se deles sorrindo inseguramente. Fico
ou vou? Ah, quer saber, "Tchau".
"Tchau POETA!"
Seguiu seu caminho
pensando naquilo tudo
O que iria comer? Como iria pagar? E o pequeno
Hotel onde morava? O que seria Amanhã? Um devedor
o cobrador
cobra
serpente
O paraíso
Utopia
Gabeira,
"O HÓSPEDE DA UTOPIA"
Paraty
para ti, Bah!!!
Chegou ao boteco, os mesmos rostos, o balcão sujo, a luz fraca,
a sinuquinha, o bafo de Equador
eita cidade quente, sô!!!
Ei dona Maíra, dá uma pra cada um
é,
aquela do Santo, a branquinha
Tá legal gente, fiquem à
vontade
Foram
para o balcão deixando-o só, como ele gostava
"É
O POETA, já foi Grande Empresário, dizem que pirou
"
Apanhou sua cerveja, o copo, bateu na garrafa três vezes de baixo
para cima, gritou
RA! Todos fingiam se assustar e respondiam:
RA!
Estava sentado a um canto
o mesmo canto, sempre um encanto
encantado!!! Uma, duas, três loiras suadas
Ei Dona
Maíra, empresta uma caneta e um papel
Dali a pouco, Pelé, o rapaz que servia as mesas, chegou com seu
material que ele tanto amava
Era sua vida
Uma caneta e um
papel
Bateu com o copo novamente na garrafa
olhou ao redor, levou o
cachorro no poste, voltou, respirou fundo
um suspiro... Bêbado
Um rosto sem brilho lhe acenou
Sorriu
Sentiu, escreveu
Entregou
foi embora. Embora quisesse ficar!
Pendura
Sentiu
escreveu
Sente? Escreva!
Ao longe ouviu-se
RÁ!
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